Poesia surrealista # et finitum – Maximillien Ernst

19 06 2008

DOIS MIL PELES VERMELHAS

Para eles

o tempo existe

em estado abolido

Dois mil peles-vermelhas se abaixam

na planície

felizes de sua ventura

preludiam as sublimidades de suas danças

Eles tragam os dias

tumultuam as noites

Dois mil peles-vermelhas e lúcidos

se preparam para fazer rir a chuva

suas terras enrugadas pelo desejo e pela fome

fazem bater seus tambores a sons plenos

Sons

plenos

Dois mil peles-vermelhas amorosos

se preparam para misturar seu sangue inquieto

ao leite sombrio de suas mulheres muito calmas

ao mel ridente de suas belas crianças

Crianças do século

onde estão vossos tridentes

Dois mil peles-vermelhas

pálidos mas sólidos

deixam as famílias para morrerem à parte

Dez mil peles-vermelhas

o sangue em fogo

sua vida ainda está lá

em busca de demônios

SETE MICRÓBIOS VISTOS ATRAVÉS DE UM TEMPERAMENTO (1953)

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Max Ernst – Criador da “colagem” surrealista em 1919 com a qual impressionou Breton, foi expulso do movimento em 1954 por aceitar o Grande Prêmio de Pintura da Bienal de Veneza.

Fonte: Os arcanos da poesia surrealista – Seleção de José Pierre e Jean Schuster com tradução de Antônio Houaiss. Editora Brasiliense.

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Poesia surrealista #2 – Salvador Dalí

12 06 2008

Gala,

não está incluída

no círculo

de meus objetos de relações

teu amor está de fora

das noções comparativas e mendicantes

dos sentimentos humanos

porque não tenho sentimento algum por ti

porque os sentimentos supõem a ausência do amor

ou sua fraqueza

e é de fora de todo sentimento

que a representação pura e única

dos meus desejos

me liga sem medo

as representações violentas de minha morte

e é ainda

fora dos sentimentos

que a representação pura e única

me faz entesar e descarregar

fora

imagens hipnagógicas suplementares

da masturbação

fora

da curva nostálgica

dos lugares-comuns perversos

fora dos relógios sensibilizáveis

por meio

de uma multidão de tinteiros

colocados em equilíbrio

ao longo de teu corpo alongado

sobre um travesseiro de algas marinhas

cor de merda

de fora

das estratificações mentais

que nascem

de origens hipoteticamente sensíveis

da fixação nacísica

de meus próprios cheiros

hierarquicamente

o cheiro dos meus pés

o cheiro do debaixo de meus colhões

o cheiro da minha glande

o cheiro das minhas axilas

o cheiro de minha própria merda

O AMOR E A MEMÓRIA (1931)

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Salvador Dalí – Seus poemas estão reunidos em La Femme Visible (1930) e L’amour et la Mémoire (1931).

Fonte: Os arcanos da poesia surrealista – Seleção de José Pierre e Jean Schuster com tradução de Antônio Houaiss. Editora Brasiliense.





Poesia surrealista #1 – Hans Arp

6 06 2008

O PAI, A MÃE, O FILHO, A FILHA

O pai se pendeu

em lugar da pêndula.

A mãe está muda.

A filha está muda.

O filho está mudo.

Todos os três seguem

O tiquetaque do pai.

A mãe é de ar.

O pai voa através da mãe.

O filho é um dos corvos

da praça de São Marcos de Veneza.

A filha é um pombo-correio.

A filha é doce.

O pai come a filha.

A mãe corta o pai em dois

come-lhe uma metade

e oferece a outra ao filho.

O filho é uma vírgula.

A filha não tem cauda nem cabeça.

a mãe é um ovo galado.

Da boca do pai

pendem caudas de palavras.

A filha é uma pá quebrada.

O pai é pois forçado

a lavrar a terra

com sua longa língua.

A mãe segue o exemplo de Cristóvão Colombo.

Anda sobre suas mãos nuas

e agarra com seus pés nus

um ovo de ar após o outro.

A filha remenda o desgaste de um eco.

A mãe é um céu cinza

em que se arrasta embaixo bem embaixo

um pai de papel mata-borrão

coberto de manchas de tinta.

O filho é uma núvem.

Quando chora chove.

A filha é uma lágrima imberbe.

O VELEIRO NA FLORESTA (1957)

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Hans Arp

Poeta, pintor e escritor, uma das maiores figuras da arte dadaísta, surrealista e abstrata.

Fonte: Os arcanos da poesia surrealista – Seleção de José Pierre e Jean Schuster com tradução de Antônio Houaiss. Editora Brasiliense.