Conto Surreal#2

18 06 2008

Um espetáculo ocorria dentro de um apartamento na zona rural de Goiás. Entrei pela janela, como mandava a tradição dos orientais ali presentes.
Uma explosão de som emudecia as bocas fechadas pelo ar condicionado que, de tão forte, fazia com que o assado de porco, recém saído do forno, ficasse resfriado.
Neste momento procurei misturar-me aos contadores de moedas do sofá da esquerda, mas não fui bem sucedido. Ao me aproximar, acabei derrubando alguns centavos pela fresta do sofá.
Afastei-me com medo daqueles olhares e enfiei-me dentro da geladeira. Lá dentro, ofereceram-me pudim de leite condensado. Uma mulher de cabelos longos ofertou um pedaço em cima da tampa da margarina.
Após agradece-la, percebi que batiam na porta da geladeira. Abriram-na. Saí nesta oportunidade e fui para cozinha.
Algumas mulheres gordas, comandadas por um jovem cozinheiro faziam uma prece. Sentados em circulo e de mãos dadas, falavam sobre as pirâmides do Egito, enquanto uma baiana japonesa benzia-os com o shoyo.
Tentei iluminar a situação com uma vela, mas fui proibido de ascende-la, pois o ar já estava rarefeito.
Um homem de aparência oriental me disse que o oxigênio do apartamento era contado na medida exata para os habitantes presentes, e que era a sua função aumenta-lo ou diminuí-lo, de acordo com o numero de pessoas.
Tomou-me a vela das mãos e apontou-me o quarto de maneira efusiva.
Ao adentrar-me no recinto, topei com um caixão e pessoas vestidas de roupas escuras com um olhar melancólico. No entanto, em suas cabeças, um chapéu feito de pele e lã de carneiro aparentemente contrastavam com a situação.
Isto pois dentro do caixão um carneiro jazia.





Borges, conhece?

25 04 2008

Sonhos, tema recorrente, que intriga e fascina minhas idéias. Andei contando sonhos e costumo lê-los. Aqui vai um apanhado de J. L. Borges, escritor, fantástico, ou escritor de contos fantásticos como preferir, ambos são corretos.

Agora só os curtos. Do Livro dos Sonhos que é uma compilação sobre o tema.

As duas portas

I

Disse a discreta Penélope: “Forasteiro! Há sonhos inescrutáveis e de linguagem obscura, e nem tudo quanto eles anunciam aos homens sempre se cumpre. Há duas portas para os leves sonhos: uma, construída de chifre; e outra, de marfim. Os que vêm através do brunido marfim nos enganam, trazendo-nos palavras sem finalidade; as que saem pelo polido chifre anunciam, ao mortal que os vê, coisas que realmente vão acontecer”.

Odisséia, XIX

A prova

Se um homem atravessasse o Paraíso em um sonho e lhe dessem uma flor como prova de que havia estado ali, e se ao despertar encontrasse essa flor em sua mão… então o quê?

S. T. Coleridge

O sonho de Tchuang-tse

Tchuang-tse sonhou que era uma borboleta e não sabia, ao acordar, se era um homem que tinha sonhado ser uma borboleta, ou uma borboleta que agora sonhava ser um homem.

Herbert Allen Giles, Tchuang-tse (1889)

O sonho do rei

— Agora está sonhando. Com quem sonha? Sabes?

— Ninguém sabe.

— Sonha contigo. E se deixasse de sonhar, o que seria de ti?

— Não sei.

— Desaparecerias. És uma figura de um sonho. Se esse rei despertasse, tu te apagarias como uma vela.

Lewis Carroll,

Aventuras de Alice através do espelho (1871)

Sonha Alonso Quijano

O homem acorda de um não definido

Sonho de alfanjes e de plano chão

E tocando sua barba com a mão

Se pergunta se está morto ou está ferido.

Não o perseguirão os feiticeiros

Que juraram seu fim à luz da lua?

Nada. Só o frio. Somente a sua

Doença dos anos derradeiros.

O fidalgo foi um sonho de Cervantes

e Dom Quixote, um sonho do fidalgo.

O duplo sonho os confunde, e algo

Está ocorrendo, e ocorreu já antes.

Quijano dorme e sonha. Uma batalha:

Os mares de Lepanto e a metralha.

Jorge Luis Borges