Dos fins

9 07 2008

Mulheres em piromancia

rabiscam destino e vislumbram a manhã

sedento de sonho abro meus olhos

e risco no ar o destino do peito amado

dentre todas os astros escolhi o meu rei

ou por ele fui alçada até mais alto céu

a pedra rolada assinala o caminho

da mão que transforma a flor em perfume

e o sol queima a tez sedenta de luz

das trevas a mais tênue luz sobressai

e por ela posso guiar-me nas sombras

um filete de vida extrapola num dia

o cruzar do tempo imortal

homens meninos dançando

em pura alegria giram

na piromancia

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Permitiu-se tudo, de homem

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Surpreendente seu modo de ser

traumático

expondo os segredos do banheiro

em cartões deixados pelo chão

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É ou não é surreal?

Duas coisas descubro todos os dias que gosto ainda mais: o surrealismo e o Huun-Hurr-Tu, um grupo da Mongólia que me foi apresentado a pouco tempo. Aliás, tudo converge a uma outra paixão,

Cancelado… continua. Fazer filme. Ver como gravar no Youtube. Usar o arquivo do Movie Player.

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Não querendo transformar o Surrealismo do Acaso em um blog de moda, mas dando uma puxadinha na sardinha, tenho uns sapatos interessantes para mostrar. Muitos são famosos, como os inacreditáveis sapatos de lótus chineses, outros, menos citados e nem por isso deixam de ser surreais.

Aliás, histórias sobre sapatos são bárbaras…cada modelo tem uma função por mais absurda que seja – isso não se aplica muito nos modelos contemporâneos – e tudo documentado. Pra quem quiser saber que por exemplo na …as mulheres usavam os sapatos …por…e…

Continuando nessa linha temos o…

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Jean-Louis Bédouin; Robert Benayoun; André Breton; Roland Brudieux; Adrien Dax; Guy Doumayrou; Jacqueline et Jean-Pierre Duprey; Jean Ferry; Georges Goldfayn; Alain Lebreton; Gerard Legrand; Jehan Mayoux; Benjamin Péret; Bernard Roger; Anne Sghers; Jean Schuster; Clovis Trouille e seus camaradas estrangeiros atualmente em Paris.

Le Libertaire, 12 de outubro de 1951

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Sur mes cahiers d’écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J’écris ton nom

(…)

Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté.

Paul Éluard

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E assim terminam os começos.

C.





Poesia surrealista # et finitum – Maximillien Ernst

19 06 2008

DOIS MIL PELES VERMELHAS

Para eles

o tempo existe

em estado abolido

Dois mil peles-vermelhas se abaixam

na planície

felizes de sua ventura

preludiam as sublimidades de suas danças

Eles tragam os dias

tumultuam as noites

Dois mil peles-vermelhas e lúcidos

se preparam para fazer rir a chuva

suas terras enrugadas pelo desejo e pela fome

fazem bater seus tambores a sons plenos

Sons

plenos

Dois mil peles-vermelhas amorosos

se preparam para misturar seu sangue inquieto

ao leite sombrio de suas mulheres muito calmas

ao mel ridente de suas belas crianças

Crianças do século

onde estão vossos tridentes

Dois mil peles-vermelhas

pálidos mas sólidos

deixam as famílias para morrerem à parte

Dez mil peles-vermelhas

o sangue em fogo

sua vida ainda está lá

em busca de demônios

SETE MICRÓBIOS VISTOS ATRAVÉS DE UM TEMPERAMENTO (1953)

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Max Ernst – Criador da “colagem” surrealista em 1919 com a qual impressionou Breton, foi expulso do movimento em 1954 por aceitar o Grande Prêmio de Pintura da Bienal de Veneza.

Fonte: Os arcanos da poesia surrealista – Seleção de José Pierre e Jean Schuster com tradução de Antônio Houaiss. Editora Brasiliense.





Poesia surrealista #2 – Salvador Dalí

12 06 2008

Gala,

não está incluída

no círculo

de meus objetos de relações

teu amor está de fora

das noções comparativas e mendicantes

dos sentimentos humanos

porque não tenho sentimento algum por ti

porque os sentimentos supõem a ausência do amor

ou sua fraqueza

e é de fora de todo sentimento

que a representação pura e única

dos meus desejos

me liga sem medo

as representações violentas de minha morte

e é ainda

fora dos sentimentos

que a representação pura e única

me faz entesar e descarregar

fora

imagens hipnagógicas suplementares

da masturbação

fora

da curva nostálgica

dos lugares-comuns perversos

fora dos relógios sensibilizáveis

por meio

de uma multidão de tinteiros

colocados em equilíbrio

ao longo de teu corpo alongado

sobre um travesseiro de algas marinhas

cor de merda

de fora

das estratificações mentais

que nascem

de origens hipoteticamente sensíveis

da fixação nacísica

de meus próprios cheiros

hierarquicamente

o cheiro dos meus pés

o cheiro do debaixo de meus colhões

o cheiro da minha glande

o cheiro das minhas axilas

o cheiro de minha própria merda

O AMOR E A MEMÓRIA (1931)

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Salvador Dalí – Seus poemas estão reunidos em La Femme Visible (1930) e L’amour et la Mémoire (1931).

Fonte: Os arcanos da poesia surrealista – Seleção de José Pierre e Jean Schuster com tradução de Antônio Houaiss. Editora Brasiliense.





Poesia surrealista #1 – Hans Arp

6 06 2008

O PAI, A MÃE, O FILHO, A FILHA

O pai se pendeu

em lugar da pêndula.

A mãe está muda.

A filha está muda.

O filho está mudo.

Todos os três seguem

O tiquetaque do pai.

A mãe é de ar.

O pai voa através da mãe.

O filho é um dos corvos

da praça de São Marcos de Veneza.

A filha é um pombo-correio.

A filha é doce.

O pai come a filha.

A mãe corta o pai em dois

come-lhe uma metade

e oferece a outra ao filho.

O filho é uma vírgula.

A filha não tem cauda nem cabeça.

a mãe é um ovo galado.

Da boca do pai

pendem caudas de palavras.

A filha é uma pá quebrada.

O pai é pois forçado

a lavrar a terra

com sua longa língua.

A mãe segue o exemplo de Cristóvão Colombo.

Anda sobre suas mãos nuas

e agarra com seus pés nus

um ovo de ar após o outro.

A filha remenda o desgaste de um eco.

A mãe é um céu cinza

em que se arrasta embaixo bem embaixo

um pai de papel mata-borrão

coberto de manchas de tinta.

O filho é uma núvem.

Quando chora chove.

A filha é uma lágrima imberbe.

O VELEIRO NA FLORESTA (1957)

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Hans Arp

Poeta, pintor e escritor, uma das maiores figuras da arte dadaísta, surrealista e abstrata.

Fonte: Os arcanos da poesia surrealista – Seleção de José Pierre e Jean Schuster com tradução de Antônio Houaiss. Editora Brasiliense.