Prelúdio do ser

30 03 2008

“Certa manhã, depois de despertar de sonhos intranqüilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado em um inseto monstruoso”… ”O que aconteceu comigo?”

Este é o começo de A Metamorfose, na opinião de muitos e minha também, um dos melhores livros de Kafkaum dos melhores começos já escritos, destes que não deixa pistas ao leitor de sua continuidade, assim como o leitor, ao acordar não sabe o que lhe acontecerá.

Certa manhã, depois de despertar de sonhos intranqüilos, Somniu Om encontrou-se em seu leito com mais de uma centena de seres rodeando-lhe as pernas, agora um ninho de rastejantes e esguios seres invertebrados. “O que aconteceu comigo?”

É sabido que Somniu tem seus momentos inglórios, onde a boa sorte é lançada fora e surte uma insurreição de abominações.

Certa manhã, depois de uma noite mal dormida, C. virou-se para o lado esquerdo da cama e pode ver que ali permanecia o corpo inerte de seus pesadelos.

C. depois de refazer o caminho onírico deu de ombros e enlouqueceu.

Hipócrates, fundador da medicina moderna, formulou a teoria do valor diagnóstico dos sonhos, pois, segundo ele, a alma que se dedica por inteiro ao corpo na vigília, pode avaliar durante o sono o equilíbrio do conjunto e através dos sonhos, perceber as causas das enfermidades sofridas.

Esta verdade me foi reafirmada na sexta passada quando depois de desligar o despertador voltei a dormir e por várias vezes durante um breve sonho, alguém me chamava, avisando que iria chegar atrasada ao trabalho.

Devia ter dado “ouvidos” ao sonho. Aliás, adoro quando ocorrem os chamados sonhos lúcidos, fenômeno raro, difícil de controlar, mas que é um verdadeiro acontecimento.

O sonho, uma das fontes do movimento a que este blog se dedica, é realmente um profundo poço de incertezas e mistérios já amplamente discutido pelos “gregos anteriores a Homero, que consideravam que o cosmos estava organizado em forma de uma série de círculos concêntricos (…). Na geografia mítica grega, os sonhos existiam nos limites exteriores do mundo real e próximos de seus começos.”*

Um dos quadro de Dalí, O Grande Paranóico, é um dos mais enigmáticos para mim, destes que merecem admiração e um outro ensaio.

f. 

*Do livro Sonhos e Visões de David C. e Susan H.





Multiverso de Somniu

16 03 2008

Noite passada, enquanto observava a lua crescente, que parecia um móbile pendurado em Vênus, lembrei de algumas músicas que gosto, onde a lua, ora é azul, em outras é verde, o que me parece depender muito da manifestação cerebral do momento… Meus pensamentos fluem de maneira associativa, muitas delas inusitadas e desta vez, saltei da lua para um texto que li a muito tempo sobre o mito surrealista da Deusa Somniu, que criou a si mesma e um multiverso para abrigar as criações espontâneas que brotavam de seu corpo a cada novo pensamento. Neste multiverso, a ordem era mantida graças a uma corrente telúrica, de um violáceo pálido, calmante e que ao mesmo tempo elevava as vibrações emanadas pelas criaturas até a camada de Phantasia, onde se condensavam formando pequenos acúmulos de força viva, que gravitacionavam em espiral expansiva, indo em direção aos vários mundos da deusa. Digo mundos, pois é mais fácil visualizar vários planetas do que uma cadeia de vãos planetários a serem ocupados numa infinidade de lugares em plena construção. Tudo, é claro, interligado pela imaginação. Somniu não tinha no princípio a intenção em criar o multiverso, porém a proliferação de criaturas era tamanha que estas acabaram por viver em agrupamentos em determinadas regiões do espaço disponível, cada qual conforme suas capacidades, que não eram poucas. Então, quando a deusa viu que suas criaturas estavam encontrando semelhanças entre si, visto que todas partiam da deusa, e formando pequenos grupos de convivência, previu que a criação do multiverso seria necessária a despeito inclusive da proporção gigantesca do aparecimento de tais seres. O multiverso era dividido em vários universos e estes em planetas menores, que eram divididos em sessões, sendo que cada sessão era muito maior que nosso planeta Terra, embora não possamos comparar em termos territoriais, mas levando em consideração que no multiverso da deusa, era de conhecimento e uso de todos até a quinta dimensão, podemos ter uma idéia da infinidade e da mistura de tempo e espaço. Os seres mais evoluídos – também nasciam criaturas de maus sonhos ou maus pensamentos e até Somniu tinha seus dias de enfado quando podia pensar coisas inúteis – poderiam até, mediante algum esforço e através de sextas ou sétimas dimensões, mudarem sua forma e ainda criar uma nova sessão para sua nova existência. Ao passo que os imperfeitos tinham a possibilidade de evoluir e se aprimorar.

Agora me foge o restante deste mito, lembro apenas que algumas criaturas chegaram mesmo a viver independentes da deusa como quando temos sonhos lúcidos e dentro deles podemos escolher os caminhos a percorrer. Vou procurar ao menos a fonte desta história… Deve estar em algum arquivo perdido. Isso lembra também alguns quadros de Miró, como Carnaval de Arlequim, onde tantas formas ocupam um mesmo espaço, de forma harmoniosa, de forma a se destacarem cada uma com sua beleza.

f.