Crível Pensamento

30 07 2009

O soberbo e sempre soberano pulsar do pensamento

Pois em mim anguloso e nem sempre aleatório movimento

porém,

acima de tudo, inconfesso no desejo de migrar para além

de tudo o que é belo,

e sublime,

e presente no peito amado.

Crê em minhas palavras mas não credite os sentimentos.

f.





Catatumba vazia, Amor de todas as vidas e só.

28 05 2008

Os ricos versos de Matajiradh foram para o movimento surrealista o que a democracia foi para a China. Nada. Ou quase nada. O autor de fábulas como ‘Chove leite dos vapores de mel no paraíso de Drhya’ e ‘O escorpião leva rosas na boca’ entre uma série de contos e poesias descansou a pena durante dez anos para se dedicar a desenhos e pinturas toscas que na essência guardam o teor puro do surrealismo mesmo muitos anos antes deste surgir e muito antes ainda do paranóico-crítico despontar como uma das expressões máximas de um dos ícones rejeitados do movimento.

Pouco restou do trabalho do autodidata Matajiradh que buscava em infindáveis fórmulas o sucesso sempre vão e escorregadio assim como sua vida nos idos de 1490, data aproximada em que os exíguos estudiosos da obra deste criativo sugerem que ele faleceu de causa misteriosa, tanto que seu corpo enterrado sem identificação nunca foi encontrado quando procurado dois anos após sua morte por um parente que morava em outra província do norte da atual região dos Países Baixos.

Pode ter notado que o nome Matajiradh aparenta influência indiana e tem. Na verdade consta no mesmo documento que cita a busca do referido parente (este não identificado e muito menos o grau de parentesco entre eles) que o verdadeiro nome do poeta-pintor era outro, de sobrenome desconhecido, apenas podendo ser identificado como Hari e que este adotou o nome Matajiradh depois de uma viagem empreendida da qual pouca ou nenhuma notícia se tem. O que vi em comentários feitos em um blog de um pesquisador da obra é que nesta viagem Hari teria conhecido um homem estrangeiro e travado grande amizade.

O conteúdo também deixa transparecer uma dúvida quanto ao sexo de Hari. Na verdade a dúvida surge porque o nome não seria Hari e sim Ari, uma corruptela de Ariadne e Matajiradh foi usado pelo poeta-pintor para assinar seus textos após essa viagem. Talvez essa amizade com o estrangeiro não tivesse sido assim só uma amizade, talvez um casamento. Mas como as mulheres geralmente foram discriminadas nestes períodos, as primeiras notícias que se tem dos estudos de Matajiradh consideram-no homem. Este artifício foi usado por outras mulheres na história e para minha infelicidade não surge nome nenhum no momento.

O fato que levou ao nascimento deste artigo foi a leitura de um fragmento de poesia que em tradução literal ficou com o seguinte título: Amor de todas as vidas – e cujo trecho está no final do artigo. O que me chamou mais atenção é que este contemporâneo de Hieronymus Bosch, que pode ter sido influenciado por este renascentista visionário, talvez e na minha opinião um dos mais puros surrealistas, e suas pinturas pouco apreciadas na época em que a arte de dissociava da igreja e o belo era exaltar o homem.

Amor de todas as vidas

Seguir-se ia o influxo da morte

no leito derramado de odores

enquanto belas viríeis, [são] as virtudes dos observadores

saberias entrar [?]

pétala amarela de flor

em teus cachos salutares

no peito que exibe o regaço da transfiguração

num ventre límpido que a memória ressuscita em sonhos

lugar [onde] o mais branco brilha entre carne e águas mornas

Na fronte dispõe os símbolos [do que] pensas natural

e são tão somente sinais do amor trazido de todas as vidas

que reconheceríeis em qualquer

E continua.

f.

Para entrar em contato: cristianefas@hotmail.com





Citei-te

27 05 2008

Provoco-te, pois é estilo
Finges vermelha, pois é costume
Importuno-te, pois sou intranqüilo
Se foges, não és imune?

Sumida, anuncio-te em rimas
Apenas para atentá-la
Nenhuma palavra lastima
Só um aperto de mãos procurava

Inofensivo, ataco-te em despropósito
Apenas para parodiar
Não te ofendas emudecida
Pois não aprenderei “citar”…

Lês, muda e respondes a altura!
Num calibre de alta inteligência
Usas o que achas da minha figura
E crias a própria ciência

Recrias a história contada
contei a historia criada
Mas aqui está a minha rendição
Assinei pergaminhos digitais em néon





Surresimbolismo de que?

22 05 2008

psicótico tempestivo analítico

temporal aflitivoPossessivotemerário apelativo

Primitivo Tiranoapreensivo

punitivo transfiguradoAbortivoputativo transitivo amargurado

Em processo retrogradativo

de incubencia cerebral,

uma nevralgia, arrepio na gengiva

intuição decodificada pelo estado neuro-opcional

de cegueira surda da apostasia





Femalê

20 05 2008

Trocamos figurinhas
Compartilhamos prazeres
Multipliquei tuas alegrias
Ouvi o som da tua alma
Dancei o teu bolero
Elogiei-te, sincero
Acariciei-te o ego
Dei-te remédio

– Que tédio!

Então fui descartado…





Ensaio de poesia

16 05 2008

Seres

metafícos sentimentos

do mar revolto a sereia grita

a aguda dor do náufrago resgatado

____

Surpreendente seu modo de ser

traumático

expondo os segredos do banheiro

em cartões deixados no chão

(v1)

_____

Estranho é pensar em você

com toda crueza do ser

que se desmancha em mundanismos

e lembra que te amo com pequenas lembranças

em gotas de amor

espalhadas pelo chão privado

(v2)

______

Delicadezas de fora

percussão interior

esse sou eu

feio e decrépito

espalhadamente atordoado em cachos

desfeitos

fingidos

roubando restos de um jantar perdido

epistolando minha vida

vou e só

fico

ali sem nada mais a resgatar

se não um montículo de vermes esgueirados de entranhas alheias

pensamentos… sobras de pensamentos.

f.





Sátira Sátiros Satyricon

8 05 2008

O LivroChegou as minhas mãos um livrinho, com boa recomendação, capa instigante, autor pomposo, tradutor brilhante (adoro Leminsk)…larguei com uma mão as bênçãos de Yogananda e com a outra fui as letras desta obra-prima romana. Satyricon, escrito à época de Nero (o incendiário de Roma).

As tramóias e o cotidiano seguem em uma linguagem afiada e despudorada com todas as nervuras romanas expostas. A voracidade do Império Romano, a libido ambígua e desenfreada e as misérias do espírito humano ali, viradas do avesso, como uma crítica, feita sob o humor sarcástico que poucos tem o dom de fazer sem cair no escracho.

Praticamente impossível transcrever algum trecho deste livro, mas para ilustrar lá vai: “Enquanto isso, abandonamos as ruas mais movimentadas e só nos movíamos pelas partes mais ermas da cidade. Ao cair da tarde, num bairro afastado, cruzamos com duas mulheres nada feias, cobertas com um véu. Em passos lentos, seguimos as duas até um pequeno templo, onde elas entraram. De lá de dentro, vinha um insólito zumbido, como se fosse de vozes vibrando dentro de uma caverna. Muita curiosidade nos impeliu a entrar no templo, onde vimos todas aquelas mulheres, como bacantes, agitando, na mão direita, grossos bastões em forma de caralho. Não foi possível ver mais: quando notaram nossa presença, soltaram um grande grito, que fez tremer a abóbada do templo, e vieram para cima de nós. Mais rápidos que elas, caímos fora, e voltamos para nosso albergue”.

Como os personagens centrais são três rapazotes metidos a espertos muitas confusões acontecem. Fico pensando na quantidade destes acontecimentos em nossos dias e se teríamos algum Petrônio para narrar suas peripécias. Seria interessante também, talvez, um livro como este sobre a nossa politicagem tão sacana e satírica quanto as bacantes.

f.

Petrônio

Satyricon – tradução de Paulo Leminsk diretamente do latim.

Editora Brasiliense.

Em tempo: Fellini Satyricon o filme – dica da Daniela.