Eu que fiz!
Eu que fiz!
Essa história aconteceu entre agosto e dezembro de 2008.
Ser um quintanista de direito tem lá suas vantagens, pouca aula, muito buteco, muita festa bancada pelos professores e uma sabedoria muito peculiar: conhecer todo espaço físico da faculdade.

Um desses espaços físicos que só os quintanistas de direito de uma faculdade de Marília conhecem chama-se banheiro da biblioteca. O local de sua construção é estratégico, fica nos fundos da ala de vídeos educativos, ou seja, 2 ou 3 visitantes por biênio. Sendo assim, quando a vontade apertava era para lá que os quintanistas corriam.
No entanto, um de meus amigos desconhecia o paradeiro desse pacífico local, expliquei e lá foi ele em sua desbravante epopéia. E aqui abro um aparte para elucidar mais uma das vantagens de ser quintanista: a amizade que um curso de 5 anos proporciona, não há meio termo entre uma conversa de quintanistas e eis que em seu retorno ouvi o seguinte relato.
“…cheguei e entrei na primeira porta que vi. O silêncio de lá é reconfortante e animador. Sentei-me na privada e logo veio a linha de frente das tropas do general Delgado. O barulho era ensurdecedor mas eu ouvi ruídos estranhos ao que estava acostumado. Não dei bola e dei continuidade à batalha. No entanto, os ruídos continuaram estranhos e resolvi parar de repente, só pra confirmar. Foi então que reparei que não estava sozinho, havia outra pessoa na porta ao lado da minha.
Nem pestanejei, comecei a gargalhar como um maluco e o sujeito ao lado também. Após as risadas começamos a conversar. Falamos sobre algumas novas modalidades de contrato, da reforma do Código Civil, da farsa do tribunal do júri etc. Então veio o momento crucial. Precisavamos sair… Ele sugeriu que um esperasse enquanto o outro tivesse tempo para evadir-se da biblioteca. Eu concordei e assim foi, ele saiu, esperei mais 2 ou 3 minutos e também sai. Não sei quem é, nem nunca vou saber. E tudo isso graças a você!”
Eu ouvi isso de verdade, por isso não cito nomes nem datas mais precisas.
Créditos fotográficos: Almeirim
Professora ou professor do meu Brasil varonil, eu não faço a menor idéia em que série a gente aprende sobre surrealismo, o que eu sei é que tudo que aprendi sobre foi com minhas pesquisas, leituras e visitas a museus. Mas parecem que resolveram ensinar nas escolas, então não perca a oportunidade de ensinar essa mulecada o valor real do surrealismo.
Lição 1 – Não supervalorize Salvador Dalí. O surrealismo foi muito além do que o bigodudo aí fez, claro que deixá-lo de lado não é uma escolha. Mostre suas telas, mostre suas singularidades mas não deixe o homem superar a obra, Dalí foi um dentre vários. Não esqueça de levar o perfume…
Lição 2 – Diferentemente das outras expressões artísticas, o surrealismo não se importa do que vão pensar das suas telas. Sendo assim, cuidado ao mostrar uma onde a virgem espanca o menino Jesus. Os pais e responsáveis podem ficar putos e uma demissão pode vir a acontecer.
Lição 3 – Surrealismo não é só pintura. Vale a pena dar uma lida no Manifesto escrito por Breton, tanto pela parte histórica quanto pelo significado do movimento. Sim, é um pouco extenso e de vez em quando chato, nada que tenha matado alguém entretanto.
Lição 4 – Mostre o filme Um cão andaluz. Como eu disse, o surrealismo foi além da pintura. O filme é ótimo, algumas cenas são imprórias, admito, mas nada tão violento quanto o PicaPau ou o Frajola. É preto e branco, sem som, completamente nonsense, mas é mais do que uma aula de surrealismo, além de ser de pouca duração. Caso não o tenha disponível, aí vai o link para download: Um cão andaluz. O filme foi dirigido por Luis Buñuel e o próprio ícone, Salvador Dalí. De qualquer forma é melhor assistir antes de mostrar pra galerinha…
Lição 5 – Vanguarda é completamente diferente de chefia. Afinal de contas Breton nunca cobrou aluguel dos artistas por entupirem seu apartamento, não ganhou nenhum dinheiro significativo, nem se promoveu a tal ponto. Vanguardas estavam um passo a frente na cultura artística de sua época e por isso se posicionavam no pelotão de frente. Já a vanguarda surrealista, diferentemente do que propõe os wikipedistas, não se considerava a detentora da verdade, porém chegou a expulsar membros que não seguiam a linha “imposta” ao resto dos “militantes”.
Lição 6 – Kafka. Embora a maioria dos chatos literatos brasileiros não enxerguem em Kafka um potencial surrealista, na minha opinião A Metamorfose está muito perto disso. Um ser que se transforma num barata, a única explicação é essa: surrealismo.
Lição 7 – Miró. Se tudo isso parecer um pouco chato, nada melhor do que mostrar algumas telas, certo? E por que não Miró? Seus quadros são os que possuem aquela coisa lúdica mais implícita, duvido que uma criança ou adolescente não goste…
Lição 8 – Créditos. Diga que viu essas lições aqui, no Surrealismo do Acaso!
Lição 9 – Museus. Obviamente leve seus aluninhos ao museu! *
*Thank´s to Incautos do ontem!
Aulas de português geralmente são maçantes (maça de bater, aquela arma, não massa de bolo ou de pão), no entanto, certos professores conseguem prender a atenção dos alunos com certas explicações sobre nossa tão difusa língua. Como você sabe ou pelo menos deve imaginar, o português brasileiro não é igual em todas as regiões do país. Ter uma unificação total da língua em um país tão grande é tarefa sísifica digna de um Hércules erudito do século XXI. E isso é bom, minto, isso é ótimo, essa diversificação cultural ao invés de ser combatida como acontece hoje em dia deveria, na realidade, ser incentivada, explico mais adiante.
O nordeste de nosso país tem uma forma de se utilizar do português muito característica, não só quanto a linguagem oral, mas na escrita também. Enquanto que no sul e sudeste do país os artigos a e o antes da preposição de são sempre utilizados, no nordeste esse tipo de uso é completamente inusual. Exemplifico: Sul e Sudeste -> Vou na casa da Maria; Nordeste -> Vou na casa de Maria. Pode parecer pouca coisa, mas esse tipo de frase consegue ser uma das mais utilizadas em conversas informais e bate-papos. Bom, a coisa não para por aí e, para deixar mais clara essa diversificação, nada melhor do que uma pequeno comentário sobre os sotaques.
A história mostra que, principalmente nas regiões sudeste e sul, a imigração européia (e aqui leia-se espanhóis, italianos, alemães, franceses etc) foi a que teve maior influência nas partes sul da região sudeste e norte do sul. Tanto é assim que, no interior de São Paulo meu o sotaque é ultra-carregado no R, ou seja, uma clara caractéristica da língua inglesa que inluenciou meu o sotaque carregadão no R (foram os ingleses que lotearam boa parte das terras nessa região, Londrina é uma bela prova dessa característica). Já no nordeste a coisa foi diferente, devido aos ciclos que ocorriam no Brasil, a população de lá pouco ou nada foi influenciada por essa imigração européia, ou seja, a população se constituía basicamente de portugueses, negros africanos usurpados de sua terra para se tornarem escravos nas lavouras do Brasil e índios. Ou seja, conclui-se que o português de lá teve sua maior influência dada pelos índios e negros.
E então me aparecem com essa tal de reforma da língua portuguesa, imposta, mal digerida e porcamente explicada. Não sou daqueles que implicam com mudanças, muito menos vai fazer muita diferença na minha vida, nunca usei o malfadado trema quiçá soube pra que servia. Mas o acaso vem a galope, me pego a ler uma crítica do que se disse silenciado, que aponta o naciolismo no surrealismo tupiniquim. E ainda se acha perto de classificar alguma coisa que, com certeza, não faz nem idéia do que é, em essência. Por fim, pelo que entendi, faz uma tradução de Lenin, que isso companheiro?
Em resumo, cansei de perder meu tempo com os mimimi´s dessa mudança, quer falar sobre surrealismo, surpresa, estamos abertos novamente! E tenho dito!
DOIS MIL PELES VERMELHAS
Para eles
o tempo existe
em estado abolido
Dois mil peles-vermelhas se abaixam
na planície
felizes de sua ventura
preludiam as sublimidades de suas danças
Eles tragam os dias
tumultuam as noites
Dois mil peles-vermelhas e lúcidos
se preparam para fazer rir a chuva
suas terras enrugadas pelo desejo e pela fome
fazem bater seus tambores a sons plenos
Sons
plenos
Dois mil peles-vermelhas amorosos
se preparam para misturar seu sangue inquieto
ao leite sombrio de suas mulheres muito calmas
ao mel ridente de suas belas crianças
Crianças do século
onde estão vossos tridentes
Dois mil peles-vermelhas
pálidos mas sólidos
deixam as famílias para morrerem à parte
Dez mil peles-vermelhas
o sangue em fogo
sua vida ainda está lá
em busca de demônios
SETE MICRÓBIOS VISTOS ATRAVÉS DE UM TEMPERAMENTO (1953)
Max Ernst – Criador da “colagem” surrealista em 1919 com a qual impressionou Breton, foi expulso do movimento em 1954 por aceitar o Grande Prêmio de Pintura da Bienal de Veneza.
Fonte: Os arcanos da poesia surrealista – Seleção de José Pierre e Jean Schuster com tradução de Antônio Houaiss. Editora Brasiliense.

Nosso correspondente na Europa, Rodrigo Camilo, após anos de sua partida enviou seu primeiro material! Camilo, como é conhecido, é um guri de Ipaussu, ou seja, da minha terrinha. Diferentemente de mim, ele estudava e levava a sério o que aprendia na Etel. Resultado? Passou no vestibular da USP e algum tempo depois foi parar na França.
Mas vamos ao que interessa, a foto trata-se de um verdadeiro Dalí exposto em Bilbao, na Espanha durante uma fantástica mostra surrealista. A obra intitula-se Um casal com a cabeça cheia de nuvens e representa o artista e sua endeusada companheira Gala. A composição separada dos quadros (onde a paisagem parece ser a mesma) define a idéia de que os casais apesar de cada um ser um, estão sempre em sintonia, estão sempre unidos. Talvez, por acaso, essa seja a homenagem de Dalí aos casais, e aqui fica essa homenagem (atrasada) do Surrealismo do Acaso para todos aqueles que são uma só paisagem…
P.s.: eu consegui perder a foto original…
A origem da palavra surrealismo, melhor, a genealogia da palavra surrealismo é composta pela idéia da expansão da realidade no chamado mundo das artes. Na Romenia o surrealismo é chamado de suprarealism, não sei se a língua romena tem alguma coisa latina, mas no que tange ao surrealismo, sua significação, se levada ao pé da letra, nos conduz ao mesmo significado. Além do real…
Eu e você somos acostumados a vários tipos de coisas, nos familiarizamos com o cotidiano a ponto de aceitar todo tipo de coisa como normal ou mesmo como real. Vira e mexe com certeza você abre seu navegador e acessa algum site de notícias e lá está algo como: “Membro do RBD posa para revista gay mexicana” ou “Corintianos iniciam campanha no orkut para tirar o goleiro Felipe”. Daniel Cohn-Bendit (um “anarquista” metido a besta) disse em seu “O grande bazar” que quando a humanidade possuísse um mecanismo que os unisse diretamente sem que precisassem sair de suas casas a coisa seria diferente…
Ong´s são financiadas pelo governo, governos são moldados por Gno´s (Grupos nacionais oportunistas, mais conhecidos como Partidos), o governo financia os filmes, os filmes são contra o governo, metade dos brasileiros resolveu fechar os olhos, a outra adormeceu, televisão é cultura, novela uma cátedra e eu sozinho no dias dos namorados…
Gala,
não está incluída
no círculo
de meus objetos de relações
teu amor está de fora
das noções comparativas e mendicantes
dos sentimentos humanos
porque não tenho sentimento algum por ti
porque os sentimentos supõem a ausência do amor
ou sua fraqueza
e é de fora de todo sentimento
que a representação pura e única
dos meus desejos
me liga sem medo
as representações violentas de minha morte
e é ainda
fora dos sentimentos
que a representação pura e única
me faz entesar e descarregar
fora
imagens hipnagógicas suplementares
da masturbação
fora
da curva nostálgica
dos lugares-comuns perversos
fora dos relógios sensibilizáveis
por meio
de uma multidão de tinteiros
colocados em equilíbrio
ao longo de teu corpo alongado
sobre um travesseiro de algas marinhas
cor de merda
de fora
das estratificações mentais
que nascem
de origens hipoteticamente sensíveis
da fixação nacísica
de meus próprios cheiros
hierarquicamente
o cheiro dos meus pés
o cheiro do debaixo de meus colhões
o cheiro da minha glande
o cheiro das minhas axilas
o cheiro de minha própria merda
O AMOR E A MEMÓRIA (1931)

Salvador Dalí – Seus poemas estão reunidos em La Femme Visible (1930) e L’amour et la Mémoire (1931).
Fonte: Os arcanos da poesia surrealista – Seleção de José Pierre e Jean Schuster com tradução de Antônio Houaiss. Editora Brasiliense.
O PAI, A MÃE, O FILHO, A FILHA
O pai se pendeu
em lugar da pêndula.
A mãe está muda.
A filha está muda.
O filho está mudo.
Todos os três seguem
O tiquetaque do pai.
A mãe é de ar.
O pai voa através da mãe.
O filho é um dos corvos
da praça de São Marcos de Veneza.
A filha é um pombo-correio.
A filha é doce.
O pai come a filha.
A mãe corta o pai em dois
come-lhe uma metade
e oferece a outra ao filho.
O filho é uma vírgula.
A filha não tem cauda nem cabeça.
a mãe é um ovo galado.
Da boca do pai
pendem caudas de palavras.
A filha é uma pá quebrada.
O pai é pois forçado
a lavrar a terra
com sua longa língua.
A mãe segue o exemplo de Cristóvão Colombo.
Anda sobre suas mãos nuas
e agarra com seus pés nus
um ovo de ar após o outro.
A filha remenda o desgaste de um eco.
A mãe é um céu cinza
em que se arrasta embaixo bem embaixo
um pai de papel mata-borrão
coberto de manchas de tinta.
O filho é uma núvem.
Quando chora chove.
A filha é uma lágrima imberbe.
O VELEIRO NA FLORESTA (1957)
Hans Arp
Poeta, pintor e escritor, uma das maiores figuras da arte dadaísta, surrealista e abstrata.
Fonte: Os arcanos da poesia surrealista – Seleção de José Pierre e Jean Schuster com tradução de Antônio Houaiss. Editora Brasiliense.
Trabalhos! A faculdade além de ser uma empresa adoradora da ‘Musa Extorsão’ costuma arrumar mil coisas pra fazer em fim de semestre. Não sei se isso faz parte dos dogmas ou parte do próprio corpo de seguidores remunerados por ela. Está certo que pela quantia cobrada, a cada ano mais exorbitante (isso que não faço medicina…), é primordial que estimulem os acadêmicos e mais, que os desafiem. É estranho mas de forma torta talvez o consigam (em parte). Estou com uma fileira de pastas aguardando organização, desenhos para pintar, aquarelar, roupas para fazer, desfile e o trabalho que mais tem me interessado é um de História da Arte. Bingo! Fazer uma composição baseada em um movimento artístico. Adivinha? Certo! Surrealismo.
Então o que vai ser? Ainda não tive um sonho inspirador (quem sabe Freud ajudaria) mas como ando devaneando de olhos abertos penso quem sabe fazer um vestido-tela-escultura misturando desenhos, bordados alguma coisa em papel machê saindo pelo ombro com a intenção de pegar alguém de assalto. (Ins)pirações, ainda preciso delas.
O que sairia daquele ovo lá em cima?
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