Sátira Sátiros Satyricon

8 05 2008

O LivroChegou as minhas mãos um livrinho, com boa recomendação, capa instigante, autor pomposo, tradutor brilhante (adoro Leminsk)…larguei com uma mão as bênçãos de Yogananda e com a outra fui as letras desta obra-prima romana. Satyricon, escrito à época de Nero (o incendiário de Roma).

As tramóias e o cotidiano seguem em uma linguagem afiada e despudorada com todas as nervuras romanas expostas. A voracidade do Império Romano, a libido ambígua e desenfreada e as misérias do espírito humano ali, viradas do avesso, como uma crítica, feita sob o humor sarcástico que poucos tem o dom de fazer sem cair no escracho.

Praticamente impossível transcrever algum trecho deste livro, mas para ilustrar lá vai: “Enquanto isso, abandonamos as ruas mais movimentadas e só nos movíamos pelas partes mais ermas da cidade. Ao cair da tarde, num bairro afastado, cruzamos com duas mulheres nada feias, cobertas com um véu. Em passos lentos, seguimos as duas até um pequeno templo, onde elas entraram. De lá de dentro, vinha um insólito zumbido, como se fosse de vozes vibrando dentro de uma caverna. Muita curiosidade nos impeliu a entrar no templo, onde vimos todas aquelas mulheres, como bacantes, agitando, na mão direita, grossos bastões em forma de caralho. Não foi possível ver mais: quando notaram nossa presença, soltaram um grande grito, que fez tremer a abóbada do templo, e vieram para cima de nós. Mais rápidos que elas, caímos fora, e voltamos para nosso albergue”.

Como os personagens centrais são três rapazotes metidos a espertos muitas confusões acontecem. Fico pensando na quantidade destes acontecimentos em nossos dias e se teríamos algum Petrônio para narrar suas peripécias. Seria interessante também, talvez, um livro como este sobre a nossa politicagem tão sacana e satírica quanto as bacantes.

f.

Petrônio

Satyricon – tradução de Paulo Leminsk diretamente do latim.

Editora Brasiliense.

Em tempo: Fellini Satyricon o filme – dica da Daniela.





O sistema solar

10 11 2007
“(…) pode soar como música de outro planeta, mas certamente é conduzido com os pés no chão.”
[Pesquisa feita no Google: "outro planeta."]
Saturnino, ator, filho de Mercury, protagonizou uma cena com muita precisão, mas pouca paciência. Seu pai, diante do fracasso, mudaria em breve e abriria uma casa noturna.
Levado por instintos neotailandeses, sequer sabia da existência do arcabouço desumano em que a crueldade se apoiava e retirava nutrientes. Saturnino apaixonou-se pela mulher errada, mas não conseguia compreender a razão disso.
Vênus era coloquial demais à sua concepção de mulher. Mas não era culpa dela, mas sim dele, pois era dotado de uma certa insegurança e baixa auto-confiança.
Não obstante, era covarde demais para negar o seu amor por ela. Saturnino então despendia seu extinto salário em bares, buscando compreensão e apoio em amizades etílicas do recinto, onde tocava a velha banda “As Marcianas”.
“Cara você não foi legal você nem imagina como eu fiquei afinal
Cara me entreguei de paixão você pisou no meu peitovocê me deixou na mao
Só de lembrar porque fui te amar
Eu choro o teu amor foi uma onda que balancou meu barco
Me perdi sem seus espacos solidão me pegou”
[Cara. As Marcianas]Saturnino buscava um sentido a sua vida. Mudou-se para Santa Catarina onde acessou o provedor Netuno, buscando encontrar um novo apartamento.
Conseguiu um na esquina da rua Junqueira com a rua Plutão. Local este muito badalado nos finais de semana. Com o fim de observar o movimento, foi logo coprar algum objeto que poderia aumetar o seu campo de visão.
Pensou em um binóculo, mas ficou encantado com o Telescópio Jupter 525x700x60mm e decidiu comprá-lo.
Após muito observar, encontrou uma casa noturna do qual seu pai Mercury havia lhe falado.
Era a Uranus Night Club, e pelo movimento fazia muito sucesso. Foi neste momento que seu lado sentimental veio a tona e o levou ao fim. O não sucesso como ator o fez perder a cabeça. Ao ver e perceber que todos estavam se rendendo ao álcool a sua volta, decidiu acabar com sua vida sóbria.
A janela da qual pulara ia ficando cada vez mais longe… A medida que girava, podia ver a lua. Talvez o sistema solar inteiro.




Acre

25 10 2007

“Não disse que seria fácil, disse que valeria a pena.”

Da monografia da Thalita, 5º D, direito, Univem (vem você também).

Garimpeiro do horizonte, onde se esconde tua navalha assassina? É ali adiante? Aquela vagabunda de corte cego matou meu gato e escondeu minha cueca! Soltou doze dos meu pássaros antes mesmo de eu acordar e depois, sem-vergonha, sentou no meu sofá com a maior cara-de-pau, e assistiu Gilberto Barros com o maior entusiasmo! Como pode ser? Não me pergunte, foi o que me contaram… Ela simplesmente disse, no interrogatório, que sonhara com o apresentador, nú, e que precisava urgentemente ve-lo, pra ver se realmente era ele. Talvez nem Freud explique essa obsessão por apresentadores suados de TV. Realmente, não entendi porque meu gato foi morto. A navalha limitou-se a reservar-se no direito de ficar calada quanto este acontecimento. Mas nada me tira da cabeça que foi ela quem lhe arrancou as minguadas tripas. No mais, a cueca escondida, por não ser crime, disse, nos autos, que precisava dar uma de Saci pererê, porque uma navalha cega, sem eira nem beira, que se limita a enferrujar, apenas, destina-se em geral à sucataria, e, como ela deixa bem claro, seu destino vai muito além do porco do ostracismo!





Goiás

20 10 2007

“Deus, nenhum lugar pra onde correr!”

Martha and The Vandellas

Sim timoneiro, o verão veio dar o ar da graça ao planeta Brasil. Comprou água sanitária das boas e sacudiu a polvóra da moçada. Cargueiro místico, interior mítico, baleeiro linguístico, sanfoneiro artístico, alvoroço ansiolítico! Corja de bem-feitores (créditos à Dona Chlires Hoffmann) que me fazem sentir medo do bem-querer da Dona Aranha que passa perto de um cigana cujos braços voam altos, à escuridão do medo sem fim de um noite fria de verão!

Timoneiro velho de guerra, foi lindo demais acompanhar aquele povo todo durante 5 anos, alguns mais, alguns menos, mas foi tudo tão intenso e preso, tudo tão grande e muitas vezes sem nenhum sentido de ser o que devia ter sido, timoneiro! As andanças, os prédios, a vida girando tonta no altar redondo do grande salão oval… As gurias dançando feito tontas, os rapazes olhando feito raposas, as ciladas, as cagadas, os mutirões pela madrugada timoneiro, quanto coisa, quanta gente, quanta merda e quanta mosca! Quão bom foi tudo, e quão mal não foi não ter visto o que me pediram pra ter tido, ainda bem que não fugi, não arredei, não desisti, timoneiro, não ainda e não depois, porque agora é tempo e em tempo, por enquanto, estou mais do que feliz, como Clarice nos disse, o que eu sinto e quero esta além, não é liberdade, é alguma coisa que não tem nome. Até timoneiro!





Mato Grosso do Sul

17 10 2007

“…Porque o fogo é o único amigo do demônio.”

Don McLean

Bem-vindo à terra dos por ques caro timoneiro. Caso não tenha notado, hoje se faz necessário chegar a conclusões a respeito da literatura pouca, porque parece que existe gente que gosta de coisa inacabada, coisa sem sentido. Não que as acabadas e cheias de sentido não tenham sua glória. Também, longe de nós, caríssimo timoneiro, comparar qualquer forma de arte como sendo a arte da burguesia ou presa a estímulos, não não timoneiro, meu caro. Remonte-se as origens, dizem os sábios, então, qual a genealogia do por que? Quando os primeiros gregos começaram a se perguntar o por que das coisas? Tudo teria sido fácil demais se esses gregos não tivessem feito isso, não é verdade timoneiro? Por que o mundo é mundo e imundo não quer dizer não-mundo tal qual indisposição quer dizer não-disposto? Seria, ao menos, interessante a mãe chamar o filho para o banho porque ele estava não-mundo. “Você não está muito planeta Terra, entra logo no banho e nem mais um piu!” Tudo tem o seu contrário, claro-escuro, preto-branco, até os sentimentos, amor-indiferença (odiar é uma forma de amar?), então, o por que deve ter um contrário também. Seria o contra-por que? Os alunos diriam, frente à uma afirmação sobre química de um professor chato qualquer: “Professor, acabamos de esquecer tudo o que o senhor falou e nada mais queremos saber a respeito disso.”. É timoneiro, as coisas do planeta Terra são bem complicadas para os mortais que estão sem emprego, e ficam pior quando se ouve You Two (U2)…





Mato Grosso

16 10 2007

“Eu amava como amava um pescador
Que se encanta mais com a rede que com o mar!”

Oswaldo Montenegro

Chuva timoneiro, chuva timoneiro, canta coração, canta coração… Ianque bravo com a situação econômica desfavorável, cuspe matinal, jantar cômico dum domingo chique à luz de velas. Amanhã bem cedo sobe o balão da vida, acorda madrugada parida, chega de tanta encenação! Acorda timoneiro bruxo, a janela do quarto aberto faz do sangue a jugular dos desejos. Ai que coisa triste triste, muitíssimo amigo meu fez-se diabo ruivo pra cortar a garganta daquele que não comprou a pinga pra pomba-gira. Milagre é coisa de louça, um aqui outro acolá e o pobre continua a rezar, pra ver o sonho aumentar, o sonho que só se põe a sonhar. Cade a magia negra das velhas rendeiras do alto Maranhão? Cade a caatinga preta do galo e do esporão? Minha gente sofrida, lembrou-se hoje da dor, comprou barrigada de bode pra comer com azeitonas azedas. Ainda sobra tempo pra comprar água com gás, senhor timoneiro? A madrugada de novo vem se afastar, chega de tempo nublado, chega de céu carregado, não quero ser vítima da água molhada de um senhor feudal cheio de rancor por perder seu pudor e armar guerra contra a muralha, da China. O calendário, esse inimigo invisível e ardiloso, juntou o tempo nas suas mãos e escafedeu-se estropiado pra Maracangalha, dançar frevo e cantar com o maldito do timoneiro. Ai seu timoneito malvado, come logo essa porcaria de trufa que não sobrou mais nada pra dar pros porcos…





São Paulo

29 09 2007

“Um frio na espinha dorsal
Fraqueza nos joelhos
Arrepio nos meus ossos
Como se eu estivesse me sacudindo

É assim que eu fico quando me dizes tchau.”
The Guess Who

Duas bermudas e dois pares de tênis numa discussão: quem teria mais direito em assistir a copa do mundo. “Escute seu coração” dizia uma das bermudas para um dos tênis. Este encabulado até as amarras, parava e pensava o quanto se estudara para saber que o coração era uma válvula do corpo. Apareceu de repente um figura, um joelho muito dos intrometidos, e disse que guerra do peloponeso acabara de acabar numa jogada de muito talento. Chegou então uma aranha grossa, de pernas grossas, disse para pararem com todo aquele furdunço que seus filhotes sofriam de insônia crônica. O bispo muito crítico, concordou com a aranha, deu um berro de distência e correu pra junto do seu bode, dele tirou uns conselhos, cuspiu sobre o muro, deu mais dois berros épicos, cochichou com o príncipe do principado de Monâco, correu e correu, nada mais restou senão contar minhocas pardas à beira do rio Pardo. O rio, condescendente, copiosamente gargalhou em meio às sombras do velho novo bispo de fraldas aladas. Chamou uma carcaça, largada pelo vermes, amada por Baudelaire, e contou-lhe os segredos da perseverança. Fez de santo o dia, chamou chuva aos moinhos, conquistou Roma e Veneza num única só alegoria. Eis que uma lagartixa, daquelas de casa, clamou seu quinhão hereditário, fora do prazo, como querem os advogados. Subiu, desceu, comprou pólvora e correu. A lagarixa então, como o rio, desceu. O bispo anoiteceu, seu bode morreu. A aranha de grossas pernas enrubesceu, seus filhos, de estafa, recolheu. Só restou o joelho, as bermudas e os tênis na discussão eterna da copa do mundo, até que um dia a copa e o mundo morreu.





Silêncio

23 09 2007

“Se a música é o combustível do amor, que toque!”
Acho que foi Shakespeare

Ouvindo rádio em Itapuã. Penso que só eu consegui fazer essa troca na famosa música (o certo é ouvindo o mar de Itapuã, não é?).

Chamava-se Othelo, em homenagem ao bardo. Era da Bahia por obra de sua mãe. Era loiro por descuido do pai. Corria a passarela do álcool por não ter mais o que fazer. Sentava-se na areia por não saber o que fazer. Chorava amiúde por um amor que nunca teve. Faxinava as lembranças pra esquecer da solidão. Bebia café pelo nacionalismo esquecido ás margens do Ipiranga. Fumava por simples mistura, do ar baiano com o vício metropolitano.

Enxia os pulmões só pra marcar tempo, a vida passa, os olhos estacionam, o coração bate pra cumprir tabela. E canta pra ver o vento passear as costas da praia de Porto Seguro. Viaja pra ver se sente, pelo menos uma vez, a senção de ter saído do lugar. Em Itapuã, o sol a raiar, o rádio a escutar.





No meio do nada

12 09 2007

“Procuramos alguma coisa que já nos encontrou”
Jim Morrison

Outra historiazinha. Começara o dia bem cedo naquela tarde. Os olhos não mais combinavam com a cor do sutiã. Tanto faz. Ninguém mais se importa com a rosa do guia-anão. À guisa de se tornar mártir, juntou as folhas de sua calçada e com elas fez fogo. Da fumaça fez um bolo. Subiu aos céus, ressucitou no terceiro dia, fez da Terra o alívio de uma dor sem natureza. Comprou o amor dos passáros por míseros dois centavos, enquanto a lebre da sua irmã jazia morta numa casa abandonada. Proxeneta de aves! Vadia de um dente só! O povo clama e ama. Nasceu morta de uma labareda única. Viveu seu tempo com um arranque. Fez da glória uma senhora, fez de sua fada uma cadela sem jóia. Foi omissa, foi à missa, fez sexo embaixo da ponte, fez amor como se ama a própria fronte. Por fim sumiu, saiu, desfez, morreu sem deixar vida, jaz em paz num túmulo distante, próprio daqueles que nunca foram amantes…





Sabe, as melhores coisas da vida são de graça!

24 03 2006

Sabe, as melhores coisas da vida são de graça! Você pode da-las aos ursos e as abelhas…

Noite, as águas do Rio Paranapanema chiam ao redor da casa, o frio retumba nas vidraças e uma senhora, agasalhada, saí de seu banheiro, úmido, abre uma janela e se põe a observar a crisântema noite. Vê de longe dois rapazes, jovens, no clamor de seus corpos, param, olham as outras casas, observam. Um se regojiza ao ver uma janela aberta, diz algo ao outro e corre, como um leão atrás de uma lebre, de encontro à janela. A senhora vê, vai ao telefone, disca: “190”.

-Polícia militar, boa noite, em que posso ajudar?
-Boa noite seu guarda, acontece o seguinte, dois garotos pararam em frente à minha casa, um vigia enquanto o outro tenta pular o muro para alcançar a janela aberta da casa vizinha.
-Sim, entendo, qual o endereço da senhora?
-Rua das All Qaedas, 721, Vila do Amor.
-Tudo bem, até amanhã.
-Como assim “até amanhã” seu guarda, não vai mandar uma viatura para prende-los por furto, isso pois o crime de furto está devidamente elecando no Código Penal obedecendo assim ao princípio da legalidade?
-Não, hoje não, não estou disposto o suficiente pra fazer a ocorrência e os policiais de plantão estão meio cansados hoje, a senhora entende não é?
-Não, não entendo seu guarda, vai o senhor realmente dispor de um interesse público, princípio inerte à Constituição, em prol da sua preguiça, da sua falta de responsabilidade com a segurança pública, vai mesmo manchar o nome da Instituição que te paga os salários e empresta reputação além de garantir o zelo da paz???
-Exata e clarissimamente minha senhora.
-Não teme os pesaros embates e a desastrosa retaliação que vai sofrer perante tamanha falta com uma administrada?
-Eu sei que a senhora nada vai fazer, e se fizer, não terá crédito, haja vista eu estar arcabouceado pelo princípio da boa-fé dos atos públicos, que a senhora terá que provar o que diz, e, portanto, está conversa será apagada assim que desligar o telefone.
-Tudo bem então, boa noite.
-Boa noite

Tu, tu, tu, tu…








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