Chegou as minhas mãos um livrinho, com boa recomendação, capa instigante, autor pomposo, tradutor brilhante (adoro Leminsk)…larguei com uma mão as bênçãos de Yogananda e com a outra fui as letras desta obra-prima romana. Satyricon, escrito à época de Nero (o incendiário de Roma).
As tramóias e o cotidiano seguem em uma linguagem afiada e despudorada com todas as nervuras romanas expostas. A voracidade do Império Romano, a libido ambígua e desenfreada e as misérias do espírito humano ali, viradas do avesso, como uma crítica, feita sob o humor sarcástico que poucos tem o dom de fazer sem cair no escracho.
Praticamente impossível transcrever algum trecho deste livro, mas para ilustrar lá vai: “Enquanto isso, abandonamos as ruas mais movimentadas e só nos movíamos pelas partes mais ermas da cidade. Ao cair da tarde, num bairro afastado, cruzamos com duas mulheres nada feias, cobertas com um véu. Em passos lentos, seguimos as duas até um pequeno templo, onde elas entraram. De lá de dentro, vinha um insólito zumbido, como se fosse de vozes vibrando dentro de uma caverna. Muita curiosidade nos impeliu a entrar no templo, onde vimos todas aquelas mulheres, como bacantes, agitando, na mão direita, grossos bastões em forma de caralho. Não foi possível ver mais: quando notaram nossa presença, soltaram um grande grito, que fez tremer a abóbada do templo, e vieram para cima de nós. Mais rápidos que elas, caímos fora, e voltamos para nosso albergue”.
Como os personagens centrais são três rapazotes metidos a espertos muitas confusões acontecem. Fico pensando na quantidade destes acontecimentos em nossos dias e se teríamos algum Petrônio para narrar suas peripécias. Seria interessante também, talvez, um livro como este sobre a nossa politicagem tão sacana e satírica quanto as bacantes.
f.
Petrônio
Satyricon – tradução de Paulo Leminsk diretamente do latim.
Editora Brasiliense.
Em tempo: Fellini Satyricon o filme - dica da Daniela.





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