Dois banheiros

20 05 2009

Essa história aconteceu entre agosto e dezembro de 2008.

Ser um quintanista de direito tem lá suas vantagens, pouca aula, muito buteco, muita festa bancada pelos professores e uma sabedoria muito peculiar: conhecer todo espaço físico da faculdade.

Um desses espaços físicos que só os quintanistas de direito de uma faculdade de Marília conhecem chama-se banheiro da biblioteca. O local de sua construção é estratégico, fica nos fundos da ala de vídeos educativos, ou seja, 2 ou 3 visitantes por biênio. Sendo assim, quando a vontade apertava era para lá que os quintanistas corriam.

No entanto, um de meus amigos desconhecia o paradeiro desse pacífico local, expliquei e lá foi ele em sua desbravante epopéia. E aqui abro um aparte para elucidar mais uma das vantagens de ser quintanista: a amizade que um curso de 5 anos proporciona, não há meio termo entre uma conversa de quintanistas e eis que em seu retorno ouvi o seguinte relato.

“…cheguei e entrei na primeira porta que vi. O silêncio de lá é reconfortante e animador. Sentei-me na privada e logo veio a linha de frente das tropas do general Delgado. O barulho era ensurdecedor mas eu ouvi ruídos estranhos ao que estava acostumado. Não dei bola e dei continuidade à batalha. No entanto, os ruídos continuaram estranhos e resolvi parar de repente, só pra confirmar. Foi então que reparei que não estava sozinho, havia outra pessoa na porta ao lado da minha.

Nem pestanejei, comecei a gargalhar como um maluco e o sujeito ao lado também. Após as risadas começamos a conversar. Falamos sobre algumas novas modalidades de contrato, da reforma do Código Civil, da farsa do tribunal do júri etc. Então veio o momento crucial. Precisavamos sair… Ele sugeriu que um esperasse enquanto o outro tivesse tempo para evadir-se da biblioteca. Eu concordei e assim foi, ele saiu, esperei mais 2 ou 3 minutos e também sai. Não sei quem é, nem nunca vou saber. E tudo isso graças a você!”

Eu ouvi isso de verdade, por isso não cito nomes nem datas mais precisas.

Créditos fotográficos: Almeirim





Conto Surreal#2

18 06 2008

Um espetáculo ocorria dentro de um apartamento na zona rural de Goiás. Entrei pela janela, como mandava a tradição dos orientais ali presentes.
Uma explosão de som emudecia as bocas fechadas pelo ar condicionado que, de tão forte, fazia com que o assado de porco, recém saído do forno, ficasse resfriado.
Neste momento procurei misturar-me aos contadores de moedas do sofá da esquerda, mas não fui bem sucedido. Ao me aproximar, acabei derrubando alguns centavos pela fresta do sofá.
Afastei-me com medo daqueles olhares e enfiei-me dentro da geladeira. Lá dentro, ofereceram-me pudim de leite condensado. Uma mulher de cabelos longos ofertou um pedaço em cima da tampa da margarina.
Após agradece-la, percebi que batiam na porta da geladeira. Abriram-na. Saí nesta oportunidade e fui para cozinha.
Algumas mulheres gordas, comandadas por um jovem cozinheiro faziam uma prece. Sentados em circulo e de mãos dadas, falavam sobre as pirâmides do Egito, enquanto uma baiana japonesa benzia-os com o shoyo.
Tentei iluminar a situação com uma vela, mas fui proibido de ascende-la, pois o ar já estava rarefeito.
Um homem de aparência oriental me disse que o oxigênio do apartamento era contado na medida exata para os habitantes presentes, e que era a sua função aumenta-lo ou diminuí-lo, de acordo com o numero de pessoas.
Tomou-me a vela das mãos e apontou-me o quarto de maneira efusiva.
Ao adentrar-me no recinto, topei com um caixão e pessoas vestidas de roupas escuras com um olhar melancólico. No entanto, em suas cabeças, um chapéu feito de pele e lã de carneiro aparentemente contrastavam com a situação.
Isto pois dentro do caixão um carneiro jazia.





Um Conto Surrealista

10 06 2008

As cordas daquele instrumento maldito fizeram-me desfrutar de um desejo carnal saliente. Um deja-vú fez-me lembrar da crosta terrestre do meu bairro. Corri em direção a ele, com uma moto-a-vela, emprestada do capitão da polícia. O som do martelo de vento disparou-me às minhas costas como se fosse uma caneca de chá.
Algo escorreu-me às pernas.
Um energético de frutas vermelhas fez-me acordar do tombo. Nada fazia muito sentido naquela noite ensolarada e fria. Os patos faziam cesta a minha volta e aquele som ainda me excitava. Como poderia me satisfazer?
Apanhei um bocado de lenha e construí uma estatua do que poderia estar pensando. Mas logo que ficou pronta, senti um frio na espinha e ateei fogo. Aquilo ficou indemonstrável e indecente! Esquentei-me com a fogueira apagada pelo sol, que refletia na água, respingando nas margens daquele rio, que, com o tempo, chegou a secá-lo completamente.
Um vulto contou-me aos sussurros, da periculosidade com daquele local. Contou-me uma história de pessoas que morreram ali, pois lutavam e se matavam por algum pedaço de pano simbólico.
Satisfeito com o sermão, continuei buscando satisfazer-me. A medida que corria, acompanhado pelos patos, percebi que estava descalço. Agradeci (acho que aos patos) por isto, pois meus pés desnudos fizeram-me sentir um alçapão no asfalto da floresta do rio seco.
Desci por uma imensa escada, que me levaram a um estabelecimento comercial de velas para navios antigos.
O atendente logo veio maldizer o tempo, pois, segundo ele, não chovia há algum tempo.
Perguntei-lhe daquele som que ouvira e que buscava com empenho, mas ele ruborizou a face e me ofereceu um café.
Concordamos, naquele momento, em ler o jornal: “Ouro reabilita droga anti-HIV em teste”
“Inglaterra poderá fazer vinho “francês” em 2080´, diz estudo”.
Após as conclusões necessárias, voltei ao bairro movido por aquele deja-vú para tentar achar outra pista daquele som sujo e chamativo.
Indecifrável e bem escondido, desisti. Acabei, segundo o significado de um vernáculo do dicionário, no seu sentido figurado, em uma “inutilidade de tratar os mesmos temas (considerados infecundos), numa discussão ou pesquisa intelectual ou artística, de modo repetitivo, complacente e inconcludente”.





Sonho

9 05 2008

Um local desconhecido. Vários ambientes, acessíveis cada um por uma porta. Ele entra em uma delas e da de cara com várias pessoas conhecidas. Estão comemorando alguma data especial, ele se aproxima, pega um copo de cerveja com uma das garotas, senta e toma alguns goles. Vai para outra mesa e entretém alguns amigos.

Passado algum tempo resolve sair dali e conhecer os demais ambientes, entra em outra porta e se vê entre várias pessoas desconhecidas. Uma pequena interação com cada um dos presentes. Uma garota dentre as demais está sozinha, ele se aproxima e começam a conversar.

Falam sobre o comportamento feminio e demais coisas que fazem com que uma mulher se interesse pelo homem. Ele não quer só conversar com a garota, há algo mais no olhar e nos seus movimentos. E então, a resposta final:

-As personagens da Sandra Bullock não influenciam diretamente na personalidade das mulheres.

A luz acende.

    O sonho acabou.

    (Baseado em fatos supra-reais)





    Multiverso de Somniu

    16 03 2008

    Noite passada, enquanto observava a lua crescente, que parecia um móbile pendurado em Vênus, lembrei de algumas músicas que gosto, onde a lua, ora é azul, em outras é verde, o que me parece depender muito da manifestação cerebral do momento… Meus pensamentos fluem de maneira associativa, muitas delas inusitadas e desta vez, saltei da lua para um texto que li a muito tempo sobre o mito surrealista da Deusa Somniu, que criou a si mesma e um multiverso para abrigar as criações espontâneas que brotavam de seu corpo a cada novo pensamento. Neste multiverso, a ordem era mantida graças a uma corrente telúrica, de um violáceo pálido, calmante e que ao mesmo tempo elevava as vibrações emanadas pelas criaturas até a camada de Phantasia, onde se condensavam formando pequenos acúmulos de força viva, que gravitacionavam em espiral expansiva, indo em direção aos vários mundos da deusa. Digo mundos, pois é mais fácil visualizar vários planetas do que uma cadeia de vãos planetários a serem ocupados numa infinidade de lugares em plena construção. Tudo, é claro, interligado pela imaginação. Somniu não tinha no princípio a intenção em criar o multiverso, porém a proliferação de criaturas era tamanha que estas acabaram por viver em agrupamentos em determinadas regiões do espaço disponível, cada qual conforme suas capacidades, que não eram poucas. Então, quando a deusa viu que suas criaturas estavam encontrando semelhanças entre si, visto que todas partiam da deusa, e formando pequenos grupos de convivência, previu que a criação do multiverso seria necessária a despeito inclusive da proporção gigantesca do aparecimento de tais seres. O multiverso era dividido em vários universos e estes em planetas menores, que eram divididos em sessões, sendo que cada sessão era muito maior que nosso planeta Terra, embora não possamos comparar em termos territoriais, mas levando em consideração que no multiverso da deusa, era de conhecimento e uso de todos até a quinta dimensão, podemos ter uma idéia da infinidade e da mistura de tempo e espaço. Os seres mais evoluídos – também nasciam criaturas de maus sonhos ou maus pensamentos e até Somniu tinha seus dias de enfado quando podia pensar coisas inúteis – poderiam até, mediante algum esforço e através de sextas ou sétimas dimensões, mudarem sua forma e ainda criar uma nova sessão para sua nova existência. Ao passo que os imperfeitos tinham a possibilidade de evoluir e se aprimorar.

    Agora me foge o restante deste mito, lembro apenas que algumas criaturas chegaram mesmo a viver independentes da deusa como quando temos sonhos lúcidos e dentro deles podemos escolher os caminhos a percorrer. Vou procurar ao menos a fonte desta história… Deve estar em algum arquivo perdido. Isso lembra também alguns quadros de Miró, como Carnaval de Arlequim, onde tantas formas ocupam um mesmo espaço, de forma harmoniosa, de forma a se destacarem cada uma com sua beleza.

    f.





    Paralelo surrealista

    10 03 2008

    A Folha de S.Paulo desta terça-feira (19) publicou em sua primeira página um editorial sobre os processos movidos por fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus contra os jornais “Extra”, “O Globo”, “A Tarde” e contra a própria Folha. Nos processos, os fiéis se dizem ofendidos pelo teor de uma reportagem da jornalista Elvira Lobato, publicada em dezembro, que descreve as milionárias atividades do bispo Edir Macedo.
    Leia à íntegra do Editorial.

     

    Fazendo um Paralelo Surrealista:

    Um padre foi processado por pregação de má-fé com embasamento no código de ética religioso.

    Trata-se de um processo administrativo movido pela Ordem dos Padres do Brasil, a OPB, na pessoa do ora nomeado presidente Dr. Bento.

    Logicamente este não irá manusear o processo pessoalmente, outorgando poderes a algum representante religioso no Brasil.

    O tal padre teria agido em proveito pessoal, invocando Princípios da Bíblia Federal para apoiar sua pregação, com o objetivo de favorecimento pessoal, especificamente enriquecimento por doações acima do limite dizimal, estipulado pela tabela da OPB.

    Poderá ter sua carteira de padre suspensa que, enquanto efeito, não poderá exercer sua profissão religiosa.

    Também existiram denúncias de abuso de autoridade deste padre aos menores aprendizes…

    Seguindo a ótica da OPB, muitos atuam nesta profissão ilegalmente, sem possuir carteira legalizada opebista e cobrando honorários de forma a afrontar certos princípios.

    No entanto, a OPB, enquanto tradicionalista, está em constante decadência no mundo. Muitas outras Ordens estão surgindo, adotando correntes doutrinárias mais modernas e moldáveis à aspiração social, tendo como característica, a tabela de honorários dizimais reajustadas, o que gera muitas discussões.

    Vale lembrar que todas atuam em nome da Deusa (Justiça), e sinceramente espero que, em qualquer caso ela nunca seja esquecida, como fim.

    Ítalo





    Pandora

    17 12 2007

    As vezes, antes de iniciar uma poesia, ou talvez para melhor exorcizá-la de minha ilegível e confusa mente para o papel, escrevo tudo o que está se passando pela minha mente. O resultado é um monte de palavras amontoadas que precisam ser rearranjadas para formular um sentido inteligível. Não foi o caso desta, pois ao tentar construir tal operação, utilizei-me de palavras parecidas ou de fonemas parecidos, remetendo uma sentença a outra. Daí saiu o seguinte:
    “Aos que estão, que estão estáticos, questionando aquela questão que está quieta, queremos que estes estáticos esquisitos não se queixem e queiram questionar quem quer que esteja querendo qualquer coisa. È a questão que quer calar”.
    Após ler a frase nascida, da qual recorri para buscar inspiração, veio em minha mente a figura de algo que guarda alguma coisa. Uma caixa! Uma vez inspirado, busquei algum “eu-lírico” e o resto foi fácil…
    Oh, caixa cubólica esquisita
    cuja missão é sempre guardar
    Cuida de assuntos sempre alheios a ti
    e até segredos que vem a calhar
    Fileiras e pilhas te encalham aí
    mas tua presença sequer é notada
    pois tu és tímida e quadrada
    depositada nos cantos aqui e ali
    Soberana sabedoria compactada
    recheada de lembranças embaraçadas
    na maioria informações já usadas
    e que foram até descartadas
    Se nascestes pra ponderar o que guarda
    quem guardaria algo em tí?
    Siga a vocação que te foi emanada
    Não deixes que te abra
    minha namorada!







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