Poesia surrealista #2 - Salvador Dalí

Gala,

não está incluída

no círculo

de meus objetos de relações

teu amor está de fora

das noções comparativas e mendicantes

dos sentimentos humanos

porque não tenho sentimento algum por ti

porque os sentimentos supõem a ausência do amor

ou sua fraqueza

e é de fora de todo sentimento

que a representação pura e única

dos meus desejos

me liga sem medo

as representações violentas de minha morte

e é ainda

fora dos sentimentos

que a representação pura e única

me faz entesar e descarregar

fora

imagens hipnagógicas suplementares

da masturbação

fora

da curva nostálgica

dos lugares-comuns perversos

fora dos relógios sensibilizáveis

por meio

de uma multidão de tinteiros

colocados em equilíbrio

ao longo de teu corpo alongado

sobre um travesseiro de algas marinhas

cor de merda

de fora

das estratificações mentais

que nascem

de origens hipoteticamente sensíveis

da fixação nacísica

de meus próprios cheiros

hierarquicamente

o cheiro dos meus pés

o cheiro do debaixo de meus colhões

o cheiro da minha glande

o cheiro das minhas axilas

o cheiro de minha própria merda

O AMOR E A MEMÓRIA (1931)

Salvador Dalí - Seus poemas estão reunidos em La Femme Visible (1930) e L’amour et la Mémoire (1931).

Fonte: Os arcanos da poesia surrealista - Seleção de José Pierre e Jean Schuster com tradução de Antônio Houaiss. Editora Brasiliense.

Poesia surrealista #1 - Hans Arp

O PAI, A MÃE, O FILHO, A FILHA

O pai se pendeu

em lugar da pêndula.

A mãe está muda.

A filha está muda.

O filho está mudo.

Todos os três seguem

O tiquetaque do pai.

A mãe é de ar.

O pai voa através da mãe.

O filho é um dos corvos

da praça de São Marcos de Veneza.

A filha é um pombo-correio.

A filha é doce.

O pai come a filha.

A mãe corta o pai em dois

come-lhe uma metade

e oferece a outra ao filho.

O filho é uma vírgula.

A filha não tem cauda nem cabeça.

a mãe é um ovo galado.

Da boca do pai

pendem caudas de palavras.

A filha é uma pá quebrada.

O pai é pois forçado

a lavrar a terra

com sua longa língua.

A mãe segue o exemplo de Cristóvão Colombo.

Anda sobre suas mãos nuas

e agarra com seus pés nus

um ovo de ar após o outro.

A filha remenda o desgaste de um eco.

A mãe é um céu cinza

em que se arrasta embaixo bem embaixo

um pai de papel mata-borrão

coberto de manchas de tinta.

O filho é uma núvem.

Quando chora chove.

A filha é uma lágrima imberbe.

O VELEIRO NA FLORESTA (1957)

Hans Arp

Poeta, pintor e escritor, uma das maiores figuras da arte dadaísta, surrealista e abstrata.

Fonte: Os arcanos da poesia surrealista - Seleção de José Pierre e Jean Schuster com tradução de Antônio Houaiss. Editora Brasiliense.

Instante

despencando do reverso vazio as abóboras sublimam o fluxo vão da fome antagônica

pencas perdidas do horizonte de eventos em salpicos flácidos de gota tangente

tudo e cor e soslaio crescente em fluídas repartições concêntricas

em espirais exclusas de dor

só formas

Moda surrealista na História da Arte

Trabalhos! A faculdade além de ser uma empresa adoradora da ‘Musa Extorsão’ costuma arrumar mil coisas pra fazer em fim de semestre. Não sei se isso faz parte dos dogmas ou parte do próprio corpo de seguidores remunerados por ela. Está certo que pela quantia cobrada, a cada ano mais exorbitante (isso que não faço medicina…), é primordial que estimulem os acadêmicos e mais, que os desafiem. É estranho mas de forma torta talvez o consigam (em parte). Estou com uma fileira de pastas aguardando organização, desenhos para pintar, aquarelar, roupas para fazer, desfile e o trabalho que mais tem me interessado é um de História da Arte. Bingo! Fazer uma composição baseada em um movimento artístico. Adivinha? Certo! Surrealismo.

Então o que vai ser? Ainda não tive um sonho inspirador (quem sabe Freud ajudaria) mas como ando devaneando de olhos abertos penso quem sabe fazer um vestido-tela-escultura misturando desenhos, bordados alguma coisa em papel machê saindo pelo ombro com a intenção de pegar alguém de assalto. (Ins)pirações, ainda preciso delas.

Isso ajuda? … Quem sabe isso?

O que sairia daquele ovo lá em cima?

Catatumba vazia, Amor de todas as vidas e só.

Os ricos versos de Matajiradh foram para o movimento surrealista o que a democracia foi para a China. Nada. Ou quase nada. O autor de fábulas como ‘Chove leite dos vapores de mel no paraíso de Drhya’ e ‘O escorpião leva rosas na boca’ entre uma série de contos e poesias descansou a pena durante dez anos para se dedicar a desenhos e pinturas toscas que na essência guardam o teor puro do surrealismo mesmo muitos anos antes deste surgir e muito antes ainda do paranóico-crítico despontar como uma das expressões máximas de um dos ícones rejeitados do movimento.

Pouco restou do trabalho do autodidata Matajiradh que buscava em infindáveis fórmulas o sucesso sempre vão e escorregadio assim como sua vida nos idos de 1490, data aproximada em que os exíguos estudiosos da obra deste criativo sugerem que ele faleceu de causa misteriosa, tanto que seu corpo enterrado sem identificação nunca foi encontrado quando procurado dois anos após sua morte por um parente que morava em outra província do norte da atual região dos Países Baixos.

Pode ter notado que o nome Matajiradh aparenta influência indiana e tem. Na verdade consta no mesmo documento que cita a busca do referido parente (este não identificado e muito menos o grau de parentesco entre eles) que o verdadeiro nome do poeta-pintor era outro, de sobrenome desconhecido, apenas podendo ser identificado como Hari e que este adotou o nome Matajiradh depois de uma viagem empreendida da qual pouca ou nenhuma notícia se tem. O que vi em comentários feitos em um blog de um pesquisador da obra é que nesta viagem Hari teria conhecido um homem estrangeiro e travado grande amizade.

O conteúdo também deixa transparecer uma dúvida quanto ao sexo de Hari. Na verdade a dúvida surge porque o nome não seria Hari e sim Ari, uma corruptela de Ariadne e Matajiradh foi usado pelo poeta-pintor para assinar seus textos após essa viagem. Talvez essa amizade com o estrangeiro não tivesse sido assim só uma amizade, talvez um casamento. Mas como as mulheres geralmente foram discriminadas nestes períodos, as primeiras notícias que se tem dos estudos de Matajiradh consideram-no homem. Este artifício foi usado por outras mulheres na história e para minha infelicidade não surge nome nenhum no momento.

O fato que levou ao nascimento deste artigo foi a leitura de um fragmento de poesia que em tradução literal ficou com o seguinte título: Amor de todas as vidas – e cujo trecho está no final do artigo. O que me chamou mais atenção é que este contemporâneo de Hieronymus Bosch, que pode ter sido influenciado por este renascentista visionário, talvez e na minha opinião um dos mais puros surrealistas, e suas pinturas pouco apreciadas na época em que a arte de dissociava da igreja e o belo era exaltar o homem.

Amor de todas as vidas

Seguir-se ia o influxo da morte

no leito derramado de odores

enquanto belas viríeis, [são] as virtudes dos observadores

saberias entrar [?]

pétala amarela de flor

em teus cachos salutares

no peito que exibe o regaço da transfiguração

num ventre límpido que a memória ressuscita em sonhos

lugar [onde] o mais branco brilha entre carne e águas mornas

Na fronte dispõe os símbolos [do que] pensas natural

e são tão somente sinais do amor trazido de todas as vidas

que reconheceríeis em qualquer

E continua.

f.

Para entrar em contato: cristianefas@hotmail.com

Surresimbolismo de que?

psicótico tempestivo analítico

temporal aflitivoPossessivotemerário apelativo

Primitivo Tiranoapreensivo

punitivo transfiguradoAbortivoputativo transitivo amargurado

Em processo retrogradativo

de incubencia cerebral,

uma nevralgia, arrepio na gengiva

intuição decodificada pelo estado neuro-opcional

de cegueira surda da apostasia

Ensaio de poesia

Seres

metafícos sentimentos

do mar revolto a sereia grita

a aguda dor do náufrago resgatado

____

Surpreendente seu modo de ser

traumático

expondo os segredos do banheiro

em cartões deixados no chão

(v1)

_____

Estranho é pensar em você

com toda crueza do ser

que se desmancha em mundanismos

e lembra que te amo com pequenas lembranças

em gotas de amor

espalhadas pelo chão privado

(v2)

______

Delicadezas de fora

percussão interior

esse sou eu

feio e decrépito

espalhadamente atordoado em cachos

desfeitos

fingidos

roubando restos de um jantar perdido

epistolando minha vida

vou e só

fico

ali sem nada mais a resgatar

se não um montículo de vermes esgueirados de entranhas alheias

pensamentos… sobras de pensamentos.

f.

Mês de Salvador Dalí

Por que… ele teria feito mais um aninho dia 11 passado caso ainda estivesse por aí (mais de cem!). Salvador Domingo Felipe Jacinto Dalí i Domènech, marquês de Púbol, foi pintor, escultor, desenhista, escritor e cineasta… Quer mais? Um dos maiores ícones do Surrealismo, mesmo expulso, merece mais esta menção por aqui.

De um guri que ouviu dos pais que era a reencarnação do irmão ao companheiro de 50 anos de vida pode-se esperar de tudo mesmo, incluindo sua auto-denominação de ser O surrealista. Permitiu-se experimentar tudo. Começou sob influência de Giorgio de Chirico, embalou muitos trabalhos com a Paranóica Crítica defendendo que os quadros deveriam ser fotografias manuais e em cores. Explorou a violência, o erotismo e o mundo onírico em seus trabalhos. Tudo muito forte, cruel, metamorfoseado, tudo como na autodefinição: “espontâneo, de conhecimento irracional baseado na associação interpretativo-crítica dos fenômenos delirantes”. Compreende?

Não foi um artista como os demais, daqueles criadores e só (como se isso fosse um “apenas”!), partindo para outras invencionices depois da 2ª Grande Guerra. Aí ele mais uma vez extrapolou com a arte criando para a moda, publicidade… Inventou móveis, jóias, sapatos musicais, sim, que tocavam enquanto eram calçados, lindo isso.

E quantos grandes homens conhecemos com aquele bigodinho? Apenas um, brilhantemente inserido em sua própria época. Assim foi Diego Velásquez, agora o não menos inquietante John Galliano e o foi Dalí. O Surrealista.

f.

Fonte:http://educacao.uol.com.br/biografias/salvador-dali.jhtm

Sátira Sátiros Satyricon

O LivroChegou as minhas mãos um livrinho, com boa recomendação, capa instigante, autor pomposo, tradutor brilhante (adoro Leminsk)…larguei com uma mão as bênçãos de Yogananda e com a outra fui as letras desta obra-prima romana. Satyricon, escrito à época de Nero (o incendiário de Roma).

As tramóias e o cotidiano seguem em uma linguagem afiada e despudorada com todas as nervuras romanas expostas. A voracidade do Império Romano, a libido ambígua e desenfreada e as misérias do espírito humano ali, viradas do avesso, como uma crítica, feita sob o humor sarcástico que poucos tem o dom de fazer sem cair no escracho.

Praticamente impossível transcrever algum trecho deste livro, mas para ilustrar lá vai: “Enquanto isso, abandonamos as ruas mais movimentadas e só nos movíamos pelas partes mais ermas da cidade. Ao cair da tarde, num bairro afastado, cruzamos com duas mulheres nada feias, cobertas com um véu. Em passos lentos, seguimos as duas até um pequeno templo, onde elas entraram. De lá de dentro, vinha um insólito zumbido, como se fosse de vozes vibrando dentro de uma caverna. Muita curiosidade nos impeliu a entrar no templo, onde vimos todas aquelas mulheres, como bacantes, agitando, na mão direita, grossos bastões em forma de caralho. Não foi possível ver mais: quando notaram nossa presença, soltaram um grande grito, que fez tremer a abóbada do templo, e vieram para cima de nós. Mais rápidos que elas, caímos fora, e voltamos para nosso albergue”.

Como os personagens centrais são três rapazotes metidos a espertos muitas confusões acontecem. Fico pensando na quantidade destes acontecimentos em nossos dias e se teríamos algum Petrônio para narrar suas peripécias. Seria interessante também, talvez, um livro como este sobre a nossa politicagem tão sacana e satírica quanto as bacantes.

f.

Petrônio

Satyricon – tradução de Paulo Leminsk diretamente do latim.

Editora Brasiliense.

Em tempo: Fellini Satyricon o filme - dica da Daniela.

Surrealismo na moda

Fonte: Müller, Florence. Arte e Moda - 1957, Cosac & Naify.

Fotos: Revista Elle (francesa), fevereiro de 2002.

Procurando umas revistas para recorte encontrei uma matéria interessante sobre a moda e surrealismo em montagens fotográficas. Não me pergunte muito pois não traduzi a reportagem e vou apenas limitar a exposição das fotos que saíram…

Antes, porém, vale saber que o surrealismo foi um movimento realmente presente na moda. Eis um apanhado:

Em 1924 houve o lançamento da revista La Revolución Surrealiste, onde Man Ray publicou fotos de moda.

1927: Elsa Schiaparelli – fabulosa – abriu uma maison em Paris e lançou os famosos suéteres trompe-l’oeil.

A partir de 1936 ninguém mais ninguém menos que nosso conhecido Salvador Dalí passou a desenhar vestidos e acessórios para Schiaparelli.

1938: Na Exposição Internacional do Surrealismo em Paris vários artistas, entre eles Marcel Duchamp, André Masson e Salvador Dalí vestiram os manequins.

Já em 1939, o sempre criativo Dalí faz as duas vitrines para a loja de departamento nova-iorquina Bonwitt Teller provocando escândalo. Nesta época algumas coisas ainda tinham este poder.

E…vamos ao ensaio:

Chanel por Karl Lagerfeld com Salvador Dalí

Gyvenchy com Hebert Bayer

Gautier Paris com René Migritte

Emanuel Ungaro com Man Ray

Pierre Balmain com Salvador Dalí

Christian Dior com Pierre de Molinier

Atelier Versace com Salvador Dalí

Christian Lacroix com Max Ernst

f.

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