Crível Pensamento

30 07 2009

O soberbo e sempre soberano pulsar do pensamento

Pois em mim anguloso e nem sempre aleatório movimento

porém,

acima de tudo, inconfesso no desejo de migrar para além

de tudo o que é belo,

e sublime,

e presente no peito amado.

Crê em minhas palavras mas não credite os sentimentos.

f.





Olha o hífen!

17 03 2009

E para não dizer que não falei (mal), da reforma ortográfica, me lanço agora a esta árdua tarefa. Do alto dos meus tantos anos de português, que agora posso chamar de antigo, ultrapassado, reformado, mal fadado, posso dizer que mais aprendi por osmoze que pela dedicação aos livros da escola. Embora não seja adepta do internetês, o esperanto que “deu certo”, (sou obrigada a conviver com esta língua incontáveis vezes ao dia), sigo escrevendo legilvelmente, digo inteligivelmente, e vez ou outra usando alguma palavrinha chocante aos cérebros mais “sensíveis”. Eu gosto disso. Não pelo desentendimento, mas pelo uso. Existem palavras tão charmosas quanto os anos 20 e são esquecidas, confundidas e pior, assassinadas, como vemos acontecer e nem por isso as pessoas ficam chocadas. Aliás, não sei o por que essa admiração pois, nada é chocante enquanto não for conhecido. E repito, conhecido, não apenas sabido. Acredito que a maioria das pessoas ficam preocupadas com a reforma pelo temor de se verem obrigadas a rever sua grafia, nada mais. É apenas o medo da obrigação, um incômodo sem fundamento. Nisso concordo. Qual é a legitimidade de tal acontecimento? Claro, que esquecimento o meu, neste mundo globalizado falar o mesmo idioma é básico. Então fico me perguntando, por que então não definimos alguma língua dominante para ser o idioma universal. Assim todos falariam da mesma forma. Certo? Mais errado do que nunca. Jamais falaremos a mesma língua, mesmo utilizando a mesma ortografia. Pense bem, qual é a chance que tenho em escrever tal como um europeu ou um africano? Essas correções estapafúrdias não farão essa diferença, a não ser nos cofres.Qualquer reforma custa dinheiro e isso todos sabem. Um outro bom motivo para a reforma: aproximar os países que falam este belo idioma em que vos escrevo. Sim, “temos” – nós? Brasileiros pacífico-preguiçosos – que fazer Portugal engolir alguma coisa, afinal, fomos colonizados, surrupiados por eles até a medula, sofremos até hoje as demências, melhor dizendo a cretinice de um povo que tem um sistema moribundo sempre em busca de muletas para amparar a próxima campanha eleitoral, enquanto nós brasileiros pacífico-ilusionistas vamos caminhando e cantando, sem conhecer a canção, aceitando esmolas. Esmolas pagas! Se aqui no Brasil temos que engolir, como bons brasileiros pacífico-acomodados (olha o hífen!), toda esta fanfarra, com prazo final para que todos estejam já utilizando do novíssimo idioma, nos demais países a coisa anda um pouco diferente e já ouvi muitos se perguntando: e se Portugal não aceitar? Pois bem, que não aceite! Imagine a cena. Agora faço até mais que um minuto de silêncio (não mental), em que imagino a cara que não conheço dos sabichões que encabeçam a reforma. E dos outros milhões que estão pagando. Voltaríamos ao nosso “antigo” idioma? Ou a tão empenhada campanha de aproximação tornaria maior ainda o abismo que nos separam? – Em tempo, nada falaram dos clichês. Céus que me protejam de provas e trabalhos sob a nova ortografia. Diminui-se os acentos, aumentam-se os porques e eu ainda nem sei usar os quatro existentes.

Jogadinha: Eu gosto muito de gatos.

Esse gato tem pêlos brancos e bosques cheios de neve pela frente. Um longo caminho. Eu gosto muito de gatos.

Esse gato tem pelos brancos bosques cheios de neve pela frente, um longo caminho.

Eu realmente gosto da língua portuguesa e dos brasileiros. Este texto não foi escrito em português culto, nem reformado.

f.





Dos fins

9 07 2008

Mulheres em piromancia

rabiscam destino e vislumbram a manhã

sedento de sonho abro meus olhos

e risco no ar o destino do peito amado

dentre todas os astros escolhi o meu rei

ou por ele fui alçada até mais alto céu

a pedra rolada assinala o caminho

da mão que transforma a flor em perfume

e o sol queima a tez sedenta de luz

das trevas a mais tênue luz sobressai

e por ela posso guiar-me nas sombras

um filete de vida extrapola num dia

o cruzar do tempo imortal

homens meninos dançando

em pura alegria giram

na piromancia

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Permitiu-se tudo, de homem

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Surpreendente seu modo de ser

traumático

expondo os segredos do banheiro

em cartões deixados pelo chão

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É ou não é surreal?

Duas coisas descubro todos os dias que gosto ainda mais: o surrealismo e o Huun-Hurr-Tu, um grupo da Mongólia que me foi apresentado a pouco tempo. Aliás, tudo converge a uma outra paixão,

Cancelado… continua. Fazer filme. Ver como gravar no Youtube. Usar o arquivo do Movie Player.

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Não querendo transformar o Surrealismo do Acaso em um blog de moda, mas dando uma puxadinha na sardinha, tenho uns sapatos interessantes para mostrar. Muitos são famosos, como os inacreditáveis sapatos de lótus chineses, outros, menos citados e nem por isso deixam de ser surreais.

Aliás, histórias sobre sapatos são bárbaras…cada modelo tem uma função por mais absurda que seja – isso não se aplica muito nos modelos contemporâneos – e tudo documentado. Pra quem quiser saber que por exemplo na …as mulheres usavam os sapatos …por…e…

Continuando nessa linha temos o…

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Jean-Louis Bédouin; Robert Benayoun; André Breton; Roland Brudieux; Adrien Dax; Guy Doumayrou; Jacqueline et Jean-Pierre Duprey; Jean Ferry; Georges Goldfayn; Alain Lebreton; Gerard Legrand; Jehan Mayoux; Benjamin Péret; Bernard Roger; Anne Sghers; Jean Schuster; Clovis Trouille e seus camaradas estrangeiros atualmente em Paris.

Le Libertaire, 12 de outubro de 1951

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Sur mes cahiers d’écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J’écris ton nom

(…)

Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté.

Paul Éluard

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E assim terminam os começos.

C.





Poesia surrealista # et finitum – Maximillien Ernst

19 06 2008

DOIS MIL PELES VERMELHAS

Para eles

o tempo existe

em estado abolido

Dois mil peles-vermelhas se abaixam

na planície

felizes de sua ventura

preludiam as sublimidades de suas danças

Eles tragam os dias

tumultuam as noites

Dois mil peles-vermelhas e lúcidos

se preparam para fazer rir a chuva

suas terras enrugadas pelo desejo e pela fome

fazem bater seus tambores a sons plenos

Sons

plenos

Dois mil peles-vermelhas amorosos

se preparam para misturar seu sangue inquieto

ao leite sombrio de suas mulheres muito calmas

ao mel ridente de suas belas crianças

Crianças do século

onde estão vossos tridentes

Dois mil peles-vermelhas

pálidos mas sólidos

deixam as famílias para morrerem à parte

Dez mil peles-vermelhas

o sangue em fogo

sua vida ainda está lá

em busca de demônios

SETE MICRÓBIOS VISTOS ATRAVÉS DE UM TEMPERAMENTO (1953)

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Max Ernst – Criador da “colagem” surrealista em 1919 com a qual impressionou Breton, foi expulso do movimento em 1954 por aceitar o Grande Prêmio de Pintura da Bienal de Veneza.

Fonte: Os arcanos da poesia surrealista – Seleção de José Pierre e Jean Schuster com tradução de Antônio Houaiss. Editora Brasiliense.





Poesia surrealista #2 – Salvador Dalí

12 06 2008

Gala,

não está incluída

no círculo

de meus objetos de relações

teu amor está de fora

das noções comparativas e mendicantes

dos sentimentos humanos

porque não tenho sentimento algum por ti

porque os sentimentos supõem a ausência do amor

ou sua fraqueza

e é de fora de todo sentimento

que a representação pura e única

dos meus desejos

me liga sem medo

as representações violentas de minha morte

e é ainda

fora dos sentimentos

que a representação pura e única

me faz entesar e descarregar

fora

imagens hipnagógicas suplementares

da masturbação

fora

da curva nostálgica

dos lugares-comuns perversos

fora dos relógios sensibilizáveis

por meio

de uma multidão de tinteiros

colocados em equilíbrio

ao longo de teu corpo alongado

sobre um travesseiro de algas marinhas

cor de merda

de fora

das estratificações mentais

que nascem

de origens hipoteticamente sensíveis

da fixação nacísica

de meus próprios cheiros

hierarquicamente

o cheiro dos meus pés

o cheiro do debaixo de meus colhões

o cheiro da minha glande

o cheiro das minhas axilas

o cheiro de minha própria merda

O AMOR E A MEMÓRIA (1931)

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Salvador Dalí – Seus poemas estão reunidos em La Femme Visible (1930) e L’amour et la Mémoire (1931).

Fonte: Os arcanos da poesia surrealista – Seleção de José Pierre e Jean Schuster com tradução de Antônio Houaiss. Editora Brasiliense.





Poesia surrealista #1 – Hans Arp

6 06 2008

O PAI, A MÃE, O FILHO, A FILHA

O pai se pendeu

em lugar da pêndula.

A mãe está muda.

A filha está muda.

O filho está mudo.

Todos os três seguem

O tiquetaque do pai.

A mãe é de ar.

O pai voa através da mãe.

O filho é um dos corvos

da praça de São Marcos de Veneza.

A filha é um pombo-correio.

A filha é doce.

O pai come a filha.

A mãe corta o pai em dois

come-lhe uma metade

e oferece a outra ao filho.

O filho é uma vírgula.

A filha não tem cauda nem cabeça.

a mãe é um ovo galado.

Da boca do pai

pendem caudas de palavras.

A filha é uma pá quebrada.

O pai é pois forçado

a lavrar a terra

com sua longa língua.

A mãe segue o exemplo de Cristóvão Colombo.

Anda sobre suas mãos nuas

e agarra com seus pés nus

um ovo de ar após o outro.

A filha remenda o desgaste de um eco.

A mãe é um céu cinza

em que se arrasta embaixo bem embaixo

um pai de papel mata-borrão

coberto de manchas de tinta.

O filho é uma núvem.

Quando chora chove.

A filha é uma lágrima imberbe.

O VELEIRO NA FLORESTA (1957)

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Hans Arp

Poeta, pintor e escritor, uma das maiores figuras da arte dadaísta, surrealista e abstrata.

Fonte: Os arcanos da poesia surrealista – Seleção de José Pierre e Jean Schuster com tradução de Antônio Houaiss. Editora Brasiliense.





Instante

5 06 2008

despencando do reverso vazio as abóboras sublimam o fluxo vão da fome antagônica

pencas perdidas do horizonte de eventos em salpicos flácidos de gota tangente

tudo e cor e soslaio crescente em fluídas repartições concêntricas

em espirais exclusas de dor

só formas





Moda surrealista na História da Arte

5 06 2008

Trabalhos! A faculdade além de ser uma empresa adoradora da ‘Musa Extorsão’ costuma arrumar mil coisas pra fazer em fim de semestre. Não sei se isso faz parte dos dogmas ou parte do próprio corpo de seguidores remunerados por ela. Está certo que pela quantia cobrada, a cada ano mais exorbitante (isso que não faço medicina…), é primordial que estimulem os acadêmicos e mais, que os desafiem. É estranho mas de forma torta talvez o consigam (em parte). Estou com uma fileira de pastas aguardando organização, desenhos para pintar, aquarelar, roupas para fazer, desfile e o trabalho que mais tem me interessado é um de História da Arte. Bingo! Fazer uma composição baseada em um movimento artístico. Adivinha? Certo! Surrealismo.

Então o que vai ser? Ainda não tive um sonho inspirador (quem sabe Freud ajudaria) mas como ando devaneando de olhos abertos penso quem sabe fazer um vestido-tela-escultura misturando desenhos, bordados alguma coisa em papel machê saindo pelo ombro com a intenção de pegar alguém de assalto. (Ins)pirações, ainda preciso delas.

Isso ajuda? … Quem sabe isso?

O que sairia daquele ovo lá em cima?





Catatumba vazia, Amor de todas as vidas e só.

28 05 2008

Os ricos versos de Matajiradh foram para o movimento surrealista o que a democracia foi para a China. Nada. Ou quase nada. O autor de fábulas como ‘Chove leite dos vapores de mel no paraíso de Drhya’ e ‘O escorpião leva rosas na boca’ entre uma série de contos e poesias descansou a pena durante dez anos para se dedicar a desenhos e pinturas toscas que na essência guardam o teor puro do surrealismo mesmo muitos anos antes deste surgir e muito antes ainda do paranóico-crítico despontar como uma das expressões máximas de um dos ícones rejeitados do movimento.

Pouco restou do trabalho do autodidata Matajiradh que buscava em infindáveis fórmulas o sucesso sempre vão e escorregadio assim como sua vida nos idos de 1490, data aproximada em que os exíguos estudiosos da obra deste criativo sugerem que ele faleceu de causa misteriosa, tanto que seu corpo enterrado sem identificação nunca foi encontrado quando procurado dois anos após sua morte por um parente que morava em outra província do norte da atual região dos Países Baixos.

Pode ter notado que o nome Matajiradh aparenta influência indiana e tem. Na verdade consta no mesmo documento que cita a busca do referido parente (este não identificado e muito menos o grau de parentesco entre eles) que o verdadeiro nome do poeta-pintor era outro, de sobrenome desconhecido, apenas podendo ser identificado como Hari e que este adotou o nome Matajiradh depois de uma viagem empreendida da qual pouca ou nenhuma notícia se tem. O que vi em comentários feitos em um blog de um pesquisador da obra é que nesta viagem Hari teria conhecido um homem estrangeiro e travado grande amizade.

O conteúdo também deixa transparecer uma dúvida quanto ao sexo de Hari. Na verdade a dúvida surge porque o nome não seria Hari e sim Ari, uma corruptela de Ariadne e Matajiradh foi usado pelo poeta-pintor para assinar seus textos após essa viagem. Talvez essa amizade com o estrangeiro não tivesse sido assim só uma amizade, talvez um casamento. Mas como as mulheres geralmente foram discriminadas nestes períodos, as primeiras notícias que se tem dos estudos de Matajiradh consideram-no homem. Este artifício foi usado por outras mulheres na história e para minha infelicidade não surge nome nenhum no momento.

O fato que levou ao nascimento deste artigo foi a leitura de um fragmento de poesia que em tradução literal ficou com o seguinte título: Amor de todas as vidas – e cujo trecho está no final do artigo. O que me chamou mais atenção é que este contemporâneo de Hieronymus Bosch, que pode ter sido influenciado por este renascentista visionário, talvez e na minha opinião um dos mais puros surrealistas, e suas pinturas pouco apreciadas na época em que a arte de dissociava da igreja e o belo era exaltar o homem.

Amor de todas as vidas

Seguir-se ia o influxo da morte

no leito derramado de odores

enquanto belas viríeis, [são] as virtudes dos observadores

saberias entrar [?]

pétala amarela de flor

em teus cachos salutares

no peito que exibe o regaço da transfiguração

num ventre límpido que a memória ressuscita em sonhos

lugar [onde] o mais branco brilha entre carne e águas mornas

Na fronte dispõe os símbolos [do que] pensas natural

e são tão somente sinais do amor trazido de todas as vidas

que reconheceríeis em qualquer

E continua.

f.

Para entrar em contato: cristianefas@hotmail.com





Surresimbolismo de que?

22 05 2008

psicótico tempestivo analítico

temporal aflitivoPossessivotemerário apelativo

Primitivo Tiranoapreensivo

punitivo transfiguradoAbortivoputativo transitivo amargurado

Em processo retrogradativo

de incubencia cerebral,

uma nevralgia, arrepio na gengiva

intuição decodificada pelo estado neuro-opcional

de cegueira surda da apostasia








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