Surrealismo do acaso

Poesia surrealista #2 – Salvador Dalí

Publicado por: fassicolo em: 12/06/2008

Gala,

não está incluída

no círculo

de meus objetos de relações

teu amor está de fora

das noções comparativas e mendicantes

dos sentimentos humanos

porque não tenho sentimento algum por ti

porque os sentimentos supõem a ausência do amor

ou sua fraqueza

e é de fora de todo sentimento

que a representação pura e única

dos meus desejos

me liga sem medo

as representações violentas de minha morte

e é ainda

fora dos sentimentos

que a representação pura e única

me faz entesar e descarregar

fora

imagens hipnagógicas suplementares

da masturbação

fora

da curva nostálgica

dos lugares-comuns perversos

fora dos relógios sensibilizáveis

por meio

de uma multidão de tinteiros

colocados em equilíbrio

ao longo de teu corpo alongado

sobre um travesseiro de algas marinhas

cor de merda

de fora

das estratificações mentais

que nascem

de origens hipoteticamente sensíveis

da fixação nacísica

de meus próprios cheiros

hierarquicamente

o cheiro dos meus pés

o cheiro do debaixo de meus colhões

o cheiro da minha glande

o cheiro das minhas axilas

o cheiro de minha própria merda

O AMOR E A MEMÓRIA (1931)

dali

Salvador Dalí – Seus poemas estão reunidos em La Femme Visible (1930) e L’amour et la Mémoire (1931).

Fonte: Os arcanos da poesia surrealista – Seleção de José Pierre e Jean Schuster com tradução de Antônio Houaiss. Editora Brasiliense.

3 Respostas para "Poesia surrealista #2 – Salvador Dalí"

complexo

É, Dalí me deixa atordoada com suas idéias explícitas. Outros assim, não surrealistas, só leitores de Philip Roth.

A poesia se resume num “você me faz real”. Eu acho…

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