Surrealismo do acaso

Poesia surrealista #1 – Hans Arp

Publicado por: fassicolo em: 06/06/2008

O PAI, A MÃE, O FILHO, A FILHA

O pai se pendeu

em lugar da pêndula.

A mãe está muda.

A filha está muda.

O filho está mudo.

Todos os três seguem

O tiquetaque do pai.

A mãe é de ar.

O pai voa através da mãe.

O filho é um dos corvos

da praça de São Marcos de Veneza.

A filha é um pombo-correio.

A filha é doce.

O pai come a filha.

A mãe corta o pai em dois

come-lhe uma metade

e oferece a outra ao filho.

O filho é uma vírgula.

A filha não tem cauda nem cabeça.

a mãe é um ovo galado.

Da boca do pai

pendem caudas de palavras.

A filha é uma pá quebrada.

O pai é pois forçado

a lavrar a terra

com sua longa língua.

A mãe segue o exemplo de Cristóvão Colombo.

Anda sobre suas mãos nuas

e agarra com seus pés nus

um ovo de ar após o outro.

A filha remenda o desgaste de um eco.

A mãe é um céu cinza

em que se arrasta embaixo bem embaixo

um pai de papel mata-borrão

coberto de manchas de tinta.

O filho é uma núvem.

Quando chora chove.

A filha é uma lágrima imberbe.

O VELEIRO NA FLORESTA (1957)

hans_arp

Hans Arp

Poeta, pintor e escritor, uma das maiores figuras da arte dadaísta, surrealista e abstrata.

Fonte: Os arcanos da poesia surrealista – Seleção de José Pierre e Jean Schuster com tradução de Antônio Houaiss. Editora Brasiliense.

5 Respostas para "Poesia surrealista #1 – Hans Arp"

surreal ao extremo. acompanhar foi um desfio para não me perder.

As palavras numa torrente de idéias loucas não são acessíveis a qualquer mortal… é realmente desafiadora a poesia surrealista.

A complexidade dos fatos, os tornam mais interessantes. Porém poucas pessoas são capazes de interpretar os mais simples atos…

Ler Os Arcanos é outro mundo.

Felipe…
não se trata de descobrir a complexidade nos mínimos fatos. O que acontece é que não dá para se fazer apenas uma interpretação do subjetivismo na poesia, pois que ela pode ser direcionada ao vários contextos que podem proporcionar uma análise.

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